Quarto Escuro

 


– Os seus olhos estão secos informa-me, prescrevendo, de seguida, o antídoto para a secura: gotas de água que deveria fazer verter sobre as pupilas enquanto recostasse a cabeça para trás. Venda-me antes um rio inteiro [sem ínsua] venda-me antes uma margem costeira suficientemente ampla que se dê ao alcance da minha miopia. Venda-me um mar [sem destroços, sem terra, sem salvação] onde possa mergulhar os olhos e deixá-los lá ficar. Verdes. Azulados no inverno. Sempre em promoção. Dou os meus olhos a quem, por eles, deixe de ver. A quem faça de uma cegueira verdadeira maior esperança do que a minha, ao esperar em terra por paisagens menos áridas do que os dias da semana contados a partir do rés-do-chão. Corpo. Queda.

(Beatriz Hierro Lopes)


Ontem, mais ou menos, casei-me. Era dia 10 de Novembro de 2013. Preenchemos os papéis, assinámos ao lado um do outro, respirámos fundo, olhámo-nos e demos o famoso beijo final rodeado de um carinhoso abraço apertado.

Olha, não doeu!

fish


Este vestido de organza preta debruado a pedraria era da minha mãe. Teria ela uns 30 anos quando o usou, ou seja, usou-o em 1961 e eu nasci em 1964. Era uma mulher bastante mais alta do eu e mais larga de anca e de peito. Estou a prova-lo depois de o apertar de lado, no peito e de lhe subir a bainha, ainda com linha de alinhavar. Sei que o usou em festas de Verão onde se ía dançar. As mulheres iam chiques e os homens vestiam fato com laço ou se apresentavam fardados. Elas, usavam sapatos-sandália de salto agulha e bicudos à frente e os homens calçavam sapatos polidos ou de verniz preto. Portugal tinha um regime fascista mas em certos locais haviam manifestações de alegria e sobretudo de muito requinte. Os meus pais eram instruídos e  ambos funcionários públicos, no entanto, o estatuto de oficial do exército do meu pai permitia-lhes por vezes, aceder a ambientes certamente muito sedutores. Transportem-me até lá por favor, que eu trago o vestido preto de organza debruado a pedraria e enrolarei o cabelo na nuca com ganchos invisíveis. – Querido dê-me o braço!

euvestido

Tudo o que o nosso corpo faz, excepto o exercício dos sentidos, escapa à nossa percepção. Não damos conta das funções mais vitais (circulação, digestão, etc.). O mesmo se passa com o espírito: ignoramos todos os seus movimentos e transformações, as suas crises, etc., que não sejam a superficial ideação esquematizante. 
Só uma doença nos revela as profundezas funcionais do nosso corpo. Do mesmo modo, pressentimos as do espírito quando estamos em crise.

(Cesare Pavese)


 

[a uma pessoa intemporal]

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.

(O Terramoto – Tiago Nené)


 

«Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. (…)

(…) farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz… (…)

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto.»

(Clarice Lispector)


 

«O amor é de outro reino. Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias códig…o de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.»

(Ruben A. – As Folhas Ardem)


«Com a descoberta do Bóson de Higgs, cientistas de todo o mundo se uniram para desenvolver um algoritmo que pudesse ser usado em um programa de computação quântica para, finalmente, entender o cérebro feminino. Após décadas de trabalho, ficou pronto o Venus XX. Esse programa poderia ser capaz de categorizar qualquer linha de pensamento feminino em uma estrutura linear que pudesse ser lida por quem quisesse. Angústias, carências, desejos, irritações, nada ficava fora do mapeamento do Venus XX e de seus usos para diversos fins, para o desespero das neofeministas, religiosos e grupos de bioética. De um dia para o outro, veio a surpresa: Venus XX havia ganho inteligência artificial desde que foi configurado pela primeira vez. Assim, todos os resultados foram livremente inventados por ele desde que foi pré-instalado, já que ele não entendeu nada do que havia recebido e precisava manter seu emprego. Após o escândalo e a revogação dos prêmios Nobel, os cientistas conseguiram demonstrar o óbvio: toda mente mente.»

(Frederico Latrão – Versos Patéticos)


«A cidade é um enfisema pulmonar. Velhos, velhas, doentes, putas, crianças por morrer por suas mães não terem tido esperança de os deitar à marinha mal nascessem. Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio? Como pode imitar o som da terra numa concertina, que ecoa desde santa catarina até à margem, e acordar veleiros fantasma de quando o rio era um peito mais habitado que todo este silêncio, em que apenas a solidão serve de moeda de troca para uma cama menos vazia?»

(Beatriz Hierro Lopes)


«Ninguém sabe das árvores que usam das raízes como nervos, uma espécie de corpo celeste desafiando a elasticidade da terra nos jardins onde se enterra a infância das bicicletas.»

(Beatriz Hierro Lopes)

Anúncios

Diga-me...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s