A mulher da perna

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Pling-Squacrs, Pling-Squacrs, Pling-Squacrs….

À minha frente pelos corredores da estação de metropolitano por onde entro de manhã para me dirigir à cidade, surge-me por diversas vezes um vulto imponente de mulher – porte altivo, erecto, cabelo negro ondulado apanhado em rabo-de-cavalo, casaco de pele de vison comprido e farto, bota alta de salto agulha, duas muletas e uma cadência constante num andar guarnecido de dois sons diferentes que ecoam p’los túneis do subterrâneo. A persistência da sonoridade leva-me imediatamente a perscrutar a razão – descubro que são as canadianas que fazem Squacrs e uma bota que faz Pling. A mulher só tem uma perna onde usa uma bota altíssima de salto agulha com capa de metal. Tem uma dignidade de quem tem quatro e não duas. Assombrosa. Só tem uma perna. O vison mal ondula. Anda direita, sem inclinação para esquerda pró buraco onde ela falta. Desce todas as escadas do metro, direita, sóbria, sozinha, só com uma perna forrada de pelica azul clara e com duas muletas transparentes. Nunca pára nem olha pró lado em suspiros de cansaço. Anda em linhas rectas só com uma perna e um par de canadianas suspensas p’las mãos que nunca vi.

Jamais a olhei, lhe o vi o rosto. Fico esmagada pela nobreza daquele andar, só com uma perna, muito alta.

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