Ganhar asas

procissão

A minha avó alugava fatinhos de cetim que as crianças usavam nas procissões que se realizavam na Beira em honra de Santos e Padroeiras que abençoavam a região –  ele era de São João Baptista, de Santa Isabel, de Senhora de Fátima, de Pastor, de São José, de Nossa Senhora dos Remédios e de Anjo. Mandava vir alguns de Coimbra para lhe servirem de modelo e os tamanhos maiores e mais pequenos eram feitos lá em casa pela Menina Judite (2), costureira da terra, a que sempre chamámos de Menina porque nunca se casou, com tecidos, tules, rendas e arminhos que eram encomendados em Lisboa.
Nas férias, quando ía para casa dos meus avós havia um dia em que subia as escadas até ao sótão, onde estavam empilhadas umas caixas enormes brancas de cartão que continham nada mais nada menos dos que as asas (1) de anjo dos fatos, retirava-as para fora com todo o cuidado e atava -as ao meu corpo com umas fitas de nastro que delas pendiam. Todo o santo dia andava com as asas de pelúcia e tule às costas, facto que, pensava eu, me tornava numa menina encantada e me permitia voar sempre que me apetecia.
Quem me dera poder tê-las agora.

(1) Acerca das Asas, Clarice Lispector, e vou ver se ainda amanhã vou ver a sua exposição à Gulbenkian dizia assim: «Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – E daí? Eu adoro voar.»

(2) Tenho muito mais coisas para contar da personagem «Menina Judite»

4 thoughts on “Ganhar asas

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