As mulheres na guerra

igaveaman

acho que já o disse aqui, tenho uma profunda admiração pelo João de Melo, escritor. É intenso na escrita, conta tudo como é, vê-se que lhe dói a maldade humana e sei-o, é profundamente ferido pela guerra do Ultramar. O livro, «Autópsia de um Mar em Ruínas» é a prova disso, é o melhor relato que eu li até hoje do que foi a guerra nas colónias, a guerrilha travada pelos soldados no mato e os de lá, os guerrilheiros que lutavam pela terra deles. e sobre Ultramar, já muito li.

autopsia

deixou ontem um texto no facebook que integralmente transcrevo e que é de uma assustadora beleza. quando o belo é muito belo, dói, tal como o prazer deixado no corpo de uma mulher, sente-se um ardor nas entranhas.

AS MULHERES NA GUERRA  de João de Melo

Às vezes (não é assim tão raro), também elas pegam em armas e vão à luta. Quando não pegam em armas nem vão à luta, ficam para trás num pranto, a vê-los partir. Acontecem-lhes então coisas extremas. Ouvem vozes (não sei que vozes); escutam a noite toda do mundo. É dessa noite que tudo lhes vem: primeiro, uma fragrância, um frémito, uma brisa de asas assustadas com anjos em fuga – pois os anjos são sempre os primeiros a fugir da guerra; depois, um vento maldito que se enche de passos, sinais, ruídos e tumultos de gente armada para matar. Então sim, as mulheres tornam-se nervosas e acossadas. Erguem-se gestos velozes nas suas mãos frias, vibra-lhes nos ossos o desespero daquelas partes de si que deram o amor, o prazer e depois a vida aos homens. A seguir, um vulcão sangrento parece esguichar cinza de lava dentro dos seus ventres vazios. Elas sabem logo que os seus homens morreram; e que os filhos dos homens se tornaram ainda mais mortais do que antes; e que tudo em vão se perdeu na natureza dos humanos. As sempre belas, as tão amadas e bem-aventuradas mulheres!
Quando pegam em armas e vão à luta, nunca o fazem em defesa de causas injustas. Nisso, diferem em absoluto dos homens, que são capazes de vender o corpo e a alma por um punhado de ouro, contra a vã glória de matar. Para elas, a guerra não é a guerra, nem a força das armas é apenas a força das armas, mas uma emergência própria da razão. Nada decidem entre os pequenos ódios e os gestos impensados da cobiça. Só a guerra une o sentido da vida ao absurdo escuro e infinito de morrer. Ante a aproximação da guerra, o que na pele delas se levanta é um remoinho, uma revoada de indignação; uma coisa ao mesmo tempo grave e silenciosa que lhes exige um grande e supremo esforço ao coração. Armam-se para defender a casa, lutam para guardar a cama onde dormem as suas crianças, para estar de vigília à honra dos mortos familiares, para vigiar o sono irado e imenso dos seus homens. De certo modo, confundem a pátria com a casa, o patriotismo com o amor, e o sentido de andar na rua com o som dos passos de quantos vivem de ambos os lados da rua.
Elas vão sempre com os seus homens à guerra. E depois voltam para casa com eles. Há porém muitas formas de ir e voltar. Algumas vão no simples gesto de olhar a Lua, erguer na noite um dedo ou um pensamento, perguntar ao silêncio da noite se está vivo e são, se voltará cedo da guerra o seu amigo. Há as que partem ao encontro deles: virgens fechadas dentro de envelopes cheios de amor, com seus suspiros, cuidados, perguntas, conselhos, promessas e erros de ortografia. E há as cheias de melancolia, de olhos vagos, sem vida própria, e as que morrem de amor pelos seus mortos de guerra.
De tudo, o pior é quando ficam e a guerra entra nas suas casas, na sua roupa, às vezes na pele e no ventre, outras vezes no olhar estarrecido e na alma das suas crianças. Na guerra, os olhos das mulheres são sempre redondos de pânico; as bocas moles e côncavas como se tivessem perdido os dentes; os rostos descarnados e lívidos. Não há tragédia maior do que vê-las unindo-se aos corpos mutilados dos filhos. Pegam-lhes ao colo, mostram os filhos mortos: nenhuma loucura dói mais que a da mãe que nos braços ergue a morte daqueles a quem um dia deu o sangue, o leite e os verbos do amor. Ficam tão loucas dessa morte deles, que tudo se lhes torna subitamente vão em volta: o primeiro sorriso, a palavra mãe, o nome do pai e do filho, as pequenas alegrias da noite e da mesa. Olhamos, e as mulheres são a dor e o luto eterno do mundo. Toda uma civilização a chorar dentro das suas lágrimas. Pouco importa saber em que parte do planeta aconteceu essa morte de guerra – se no deserto mais escaldante ou nas montanhas frias, se nas cidades de Teerão, Cabul e Saigão ou em países como o Irão, o Cambodja, o Vietname, Angola, a Nicarágua. Aos olhos de uma mãe, a guerra é a guerra, sem tempo nem lugar, e sem mapa nem geografia. Arde em todo o mundo. Concreta e abstracta, queima os tecidos secretos do coração. Como uma bandeira ao ombro de uma criança, um rosto velado, um corpo escondido na sua capulana, uma menina em pranto ao colo da mãe, um olho de mulher na mira da sua arma de guerra. Quando morrem na guerra, é também a nossa civilização que morre; e a sua coragem que se extingue na nossa alegria de viver. Um não sei quê de nocturno vem turvar a luz do nosso dia; o sol branco das casas, que vem delas e só delas, fica-nos húmido no olhar; a dor e a aflição secam-nos os lábios; a pele e os cabelos enchem-se de um suor talvez definitivo. Como iremos continuar a viver sem as belas e amadas mulheres da nossa vida? Na guerra, a morte tem um cheiro a chamusco de porco, o peso de um corpo suspenso que alguém enforcou numa trave: a cabeça esfaqueada pela lâmina de uma qualquer bala perdida, a carne rasgada por uma granada de mão ou de morteiro, a ferida aberta por um golpe de punhal num ventre grávido de poucos meses, o olho vazado de onde escorre o nosso próprio fio de sangue. Digo-vo-lo eu, que estive lá e que as vi morrer ao meu redor. Eram já estas ou ainda outras as mulheres mortas? Não sei, nunca pude voltar a sabê-lo. A minha guerra em Angola não foi apenas a minha guerra em Angola. Negação do ser, escuro vazio do mar. Apenas a guerra, a guerra, a guerra.

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3 thoughts on “As mulheres na guerra

  1. Se me permitires, aproveito deste post e do sobre o dia das Mulheres, para relembrar e partilhar outro texto que esse me recorda. Trata-se do maravilhoso Mulheres na Revolução, texto em prosa escrito em 1977 por uma mulher e grande escritora que admiro imenso, Maria Velho da Costa. Aqui vai o link desse texto apresentado e lido por um grande actor, o Mário Viegas: http://youtu.be/zwfgZImfSU4

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