Jerusalém

2013-02-26 00.30.46

– Você escreve bem.

Mariazinha agradeceu – obrigada SôTor.

– É, você escreve bem. – Recostava-se o Director na cadeira da mobília estilo inglês com a qual guarnecia o gabinete dando-lhe um ar respeitoso mas não austero.

– SôTor, escrever é como desenhar precisa de exercícios de treino, ajudam a encontrar palavras, a sistematizar ideias. Tenho esse hobbie sabe, não lhe dou importância, mas reconheço que o treino me auxilia no trabalho.

– Muito bem, vou propor-lhe um desafio. Você este ano vai-me elaborar o relatório anual do departamento. Olhe para os anteriores, fui eu que os fiz, e dê-lhes uma lufada de ar fresco, diga o que é preciso dizer e diga ainda mais.

Mariazinha imperturbável perguntou-lhe se estaria ele a pensar nalguma inovação.

– Inove sem fugir da norma. A experiência permitia-lhe falar assim.

Mariazinha agradeceu a oportunidade e saiu do gabinete. Tinha pela frente uma estucha de um trabalho mas percebeu que se tratava de um desafio de escrita, um exercício de síntese e sistematização onde teria de deixar o seu cunho pessoal, ainda que o documento não contasse uma história e as descrições não figurassem personagens, Mariazinha teria de puxar pela preguiça e organizar-se para a empreitada, sabe bem que um documento destes não se lê embora se observe quem o assina.

()()()

Terminei de ler o Jerusalém do Gonçalo M. Tavares. Nunca tinha lido Gonçalo M. Tavares e considero agora um facto imperdoável. Não sei como é que ele é nos outros livros mas em Jerusalém cruza as vidas de pessoas comuns, as suas personagens, de uma forma inóspita e absorvente. Adjectiva-as vincadamente e sem saber se é essa a sua intenção cria no leitor uma certa repulsa sobre elas, torna-as estranhas, no entanto absolutamente possíveis de existirem. Vê-se que conhece bem a raça humana. Não permite que os leitores criem grandes intimidades e simpatias por elas, dá-nos a ideia que tudo é passageiro, que hoje estamos aqui e amanhã acolá, não nos atira com a responsabilidade de termos de tomar conta delas, de termos pena delas.

Estive a ler os comentários da contracapa do livro e Saramago dizia: – Jerusalém é um grande livro, que pertence à grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem, apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!

 – Gonçalo M. Tavares, você escreve muito bem.

Anúncios

Diga-me...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s