O ano do Nada

Hoje faltam…

11

dias para 2013, o ano do Nada.

Li o meu primeiro conto de Grimm quando requisitei o livrinho na Biblioteca Municipal das Furnas em Lisboa, hábito incutido pelo meu Pai, a visita e requisição de livros na biblioteca próxima de casa, o forrar com simplicidade o livro para não o estragar enquanto estivesse nas nossas mãos, o lê-lo e entregá-lo dentro do prazo, o trazer de novo outro após a entrega do anterior, disciplinas paternas de antigamente quando não havia Fnacs nem o apelo ao consumo nos dava este prazer orgástico do século XXI.
Recebi de presente num Natal, de que não me lembra o ano, uma belíssima brochura que dava pelo nome de, ‘Os Mais Belos Contos de Grimm’ e aquilo foi lido centenas de vezes, perdi-lhe a conta. Mais tarde, quando veio uma geração de primos mais novos, entretinha-me a ler-lhes alto as histórias, fecho os olhos com Liszt e revejo-os sentados no chão do quarto atentos às novelas de Grimm que invariavelmente pediam para contar outra vez.
A Google lembrou-me dos Grimm e apeteceu-me deixar umas linhas de nostalgia.

 Ó céu azul - o mesmo da minha infância ...

AS TRÊS FIANDEIRAS

Era uma vez uma moça muito preguiçosa, que não queria fiar, por mais que sua mãe a mandasse. Afinal, a mãe perdeu a paciência e bateu na filha, que começou a chorar muito alto. Justamente então, a Rainha estava passando diante da casa e ouviu o choro da moça. Mandou então parar a carruagem, entrou na casa e perguntou à mãe porque estava espancando a filha, que gritava tanto, que os seus gritos eram ouvidos da estrada. Com vergonha de dizer que sua filha era preguiçosa, a velha disse:
– Não há jeito de eu impedir que ela fique fiando, fiando sem parar. Ela faz questão de fiar o dia inteiro e eu sou muito pobre, não posso comprar as meadas de linho.
E a Rainha replicou:
– Não há nada que eu goste mais do que ouvir o barulho da roca. Deixe-me levar sua filha para o palácio. Tenho meadas de linho e de lã em profusão. Ela vai poder fiar o dia inteiro se quiser.
A mãe ficou satisfeitíssima com a proposta, e a Rainha levou a jovem para o palácio. Lá lhe mostrou três aposentos cheios de meadas de lã e de linho de alto a baixo e disse-lhe:
– Podes fiar este material. Quando tiver terminado, vou te casar com meu filho mais velho, embora sejas pobre. Não me importo com isso, pois acho que ser diligente e trabalhadora já constitui um dote.
A jovem ficou horrorizada, pois não conseguiria fiar aquelas meadas todas, nem se vivesse trezentos anos e trabalhasse diariamente de manhã à noite. Quando se viu sozinha começou a chorar e, durante três dias, não moveu uma palha.
No terceiro dia, a Rainha apareceu, e ficou desagradavelmente surpreendida ao ver que a roca sequer fora tocada. A moça desculpou-se, dizendo que não conseguira trabalhar porque estava muito triste, morrendo de saudade de sua mãe. A Rainha mostrou-se compreensiva, mas, ao se retirar, advertiu:
– Amanhã, tens de começar a trabalhar.
Quando ficou sozinha de novo, a jovem ficou sem saber o que fazer e, nervosa, chegou à janela. Viu, então, três mulheres caminhando em sua direção. A primeira tinha um pé chato, a segunda um lábio inferior tão grande que caía até o peito e a terceira um dedo polegar muito grande. Os três pararam em frente à janela e perguntaram à moça porque estava preocupada. Ela contou-lhes o que se passava, e as mulheres disseram:
– Se nos convidares para o casamento, não se envergonhar de nós e nos chamar de tias, e deixares que sentemos à sua mesa, teceremos as meadas para ti, e dentro de muito pouco tempo.
– Perfeitamente! – concordou a moça. – Mas entrai e começai o trabalho imediatamente.
E fez com que as estranhas entrassem no primeiro aposento onde se achavam as meadas, e elas ali se sentaram e começaram a fiar. A primeira puxava o fio e movia a roda, a segunda humedecia a meada e a terceira batia com o dedo na mesa, e cada vez que batia, caía no chão uma meada já fiada, e fiada com a maior perfeição.
A jovem escondeu as fiandeiras da Rainha e, quando esta aparecia, mostrava-lhe a grande quantidade de meadas já fiadas, e a Rainha não lhe poupava elogios. Quando o primeiro aposento ficou vazio, passaram para o segundo e desse para o terceiro, até que todo o trabalho foi feito. Então, as três mulheres se despediram e disseram à jovem:
– Não te esqueças do que nos prometeste. Não te arrependerás.
Quando a donzela mostrou à Rainha os aposentos vazios e a enorme quantidade de fios, imediatamente foi marcada a data do casamento, e o príncipe ficou satisfeitíssimo diante da perspectiva de ter uma esposa tão capaz e diligente, e a elogiou calorosamente.
E a moça disse então:
– Tenho três tias que têm sido muito boas para mim. Não queria ser ingrata com elas, agora que estou em tão boa situação. Permiti que eu as convide para o casamento e que elas se sentem connosco à mesa.
– É claro que deves convidá-la – concordaram a Rainha e o Príncipe.
Assim, quando começou a festa nupcial, apareceram as três estranhas mulheres, que a noiva recebeu amavelmente:
– Sede benvindas, queridas tias!
O noivo, porém, ficou chocadíssimo e perguntou à primeira das fiandeiras:
– Como ficaste com um pé tão largo?
– Movendo a roca – respondeu a mulher.
– E tu, como arranjaste esse beiço tão grande? – perguntou à segunda.
– Lambendo as meadas – ela respondeu.
– E esse polegar enorme, como o arranjaste? – perguntou o príncipe à terceira mulher.
– Enrolando a meada – ela respondeu.
O filho do Rei se assustou.
– De hoje em diante – decidiu – a minha linda esposa nem se aproximará de uma roca.
E assim, a moça preguiçosa se viu livre do trabalho que tanto detestava.

 
Se pudéssemos ser preguiçosos, 
se houvessem tias,
se existissem príncipes,
se o ano não terminar...

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