Janelas

Tenho uma vizinha que gosto espreitar da janela, à noite, enquanto passeia o cão, um labrador bege com pelo de cobertor. É muita dada a animais e hoje andava por debaixo dos carros ali na rua a chamar bixe-bixe a um gato que miava numa agonia que metia dó e realmente o gato não se via, num miado meigo de gato bebé, e ela munida de uma toalha turca espicharrada no chão, naquela figura, com o labrador pachorrento a assistir. Depois, ela é daquelas mulheres mal-jeitosas, grandona e gorda com umas patorras a mandarem-se prós lado à pata, um vozeirão que mete respeito, uma carona larga com um cabelo escortinhado louro, fuma que se farta e traz o molengão do cão pela trela que pouca luta lhe dá porque lhe ministra de manhã e à noite uma dose de Xanax, diz que o cão tinha ataques epiléticos, e era tão engraçado mais novito, assim que me via chicoteava-me com o rabo excitado e queria saltar-me ao colo e eu deixava e fazia-lhe festas, cão lindo, cão lindo, que ainda hei-de ter um assim.  Mais graça acho ao anão encostado à umbreira da porta a assistir ao passeio do cão e hoje às manobras de caça ao gato, a fumegar uma pirisca, baixinho, baixinho, com uma corcundinha nas costas, mostra no entanto uma virilidade máscula, nuns braços musculosos e peludos que tem, e numa cara de barba rija mas bem escanhoada que aparenta, e aquela amostra de gente é o namorado dela, que espera paciente o giro da gaja para depois se meter na cama com ela. E aquilo é que deve ser uma festa, a grandona mais ele aos pulinhos na alcova e o cãozarrão a dormitar no tapete com o comprimido no bucho.

Uma pessoa tem que se rir com estas coisitas comezinhas, estas indiscrições de janela, porque vontade de chorar trouxe eu hoje, ao ver passar pela Rua do Arsenal a manifestação dos bombeiros, todos fardados, e um bombeiro fardado mete respeito, com apitos na boca e tambores da fanfarra a clamar atenção, e lá foram a marchar até São Bento ‘da Porta Fechada’, que não há lá ninguém que os ouça, querem lá saber dos fogos quanto mais dos bombeiros, cambada de autistas que elegemos. Pois foi, estava eu no gabinete do Director, que me tinha chamado para me explicar uma merdice qualquer, quando comecei a ouvir o sururu a aproximar-se e aquilo inquietou-me. O que estava a dizer começou a irritar-me e pedi-lhe para me deixar espreitar pela janela e ver o que se passava lá abaixo, e lá iam eles os bombeiros em fila indiana, ordeiros, confessei-lhe que andava muito preocupada com a situação. O estupor começou a falar-me da filha, que está muito bem empregada na EDP e tinha viajado para o Brasil para ir fazer um contrato qualquer e que só estava preocupado por não saber se a iriam buscar de táxi ao aeroporto. Franzi-lhe o sobrolho, o sacana está bem na vida e estava-se nas tintas prós bombeiros, prós polícias e outros pobrezinhos. Disse-me que nós ali ainda estávamos muito bem, qu’isto havia de passar. Deixei-me ficar a olhar aquele povo fardado de azul a passar por Lisboa num pedido por justiça e ignorei-lhe a presença uns passos atrás de mim de mãos metidas nos bolsos das calças.

Vê-se tanta coisa por uma janela.

4 thoughts on “Janelas

  1. Como uma montanha é tão diferente vista de cima ou do sopé!… Qualquer declive é uma subida e também uma descida, conforme o ponto de partida, mas cedo ou tarde uma via intransponível para os cegos de caminhos.

  2. diz se que o exemplo vem de cima.
    ou dizia-se.

    o exemplo que nos chega de cima, é realmente merdoso nestes dias que correm.
    diria que temos boliqueime no topo da montanha.

    como os que estão bem na vida se estão a cagar nos outros… e quanto de mais alto cagam maior é a bosta. porque realmente, é bosta que esta gente tem na cabeça.
    imaginem o tipo de gente que exportamos para o brasil.. tenho receio por esse país que eu amo.

    sempre procurei dar o exemplo às minhas filhas assim como a mãe delas.
    que irei eu explicar quando ouvirem uma conversa dessas?
    nada.. provávelmente pensarão que os tempos são outros.

    e são.
    piores.
    em todos os sentidos..

    beijo Luisa e obrigado

    paulo

  3. temos cerejas do tipo, Relvas e Passos,(uns merdosos que não têm onde cair mortos) ou do tipo Borges, Gaspar e Cavaco (uns ambiciosos cujo objectivo não é Portugal mas sim poisos em cadeirões internacionais), ou do tipo Ricardo Salgado e Ulrich (uns banqueiros que existem para sugar dinheiro), enfim, isto não tem qq solução Paulo. isto vai dando a volta pelo passar do tempo, quando morrer este número assustador de velhos e o país ficar meio vazio, as despesas de saúde e pensões vão baixando naturalmente, os activos começam a chegar para os empregos que vão havendo e assim por diante. estes cabrões por nós nada farão, vai ser a natureza a tomar conta de nós.

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