O Outono de Novembro é sempre um tempo que os leva

Ultimamente tem morrido muita gente, ou minha conhecida, ou minha amiga, até familiar, com cancro. O cancro leva as pessoas sem dó nem piedade, é violento e amargo. Violenta a vítima quando lhe dizem o que tem, violenta-a nos tratamentos que tem de suportar, muitas vezes paliativos, e violenta-a na perda de qualidade de vida, na perda de feições, na perda de cabelo, na perda do companheiro ou companheira, na perda de emprego, sobretudo na perda generalizada de auto-suficiência. Tal como contava o João Ricardo Pedro no Teu Rosto será o Último, a descrever o que disse o médico Augusto Mendes ao se aperceber da aproximação do AVC que o vitimou, quem fica a saber que O tem, bem pode dizer: «Estou lixado!».
Almocei hoje com uma colega que me dizia que no mês de Novembro passa sempre mal porque a 22, faz 7 anos que lhe morreu o companheiro e contou-me tudo com pormenor. Que ele se levantou de manhã, até bem-disposto porque era o dia dos seus anos, e lhe apareceu vindo da casa de banho de olhos muito abertos a dizer-lhe que a porta abria para fora, a porta que se abria e abria para fora, e diz que cambaleava e parecia que não estava cá. Relatou-me os passos todos que deu a seguir, para quem telefonou, como avisou os filhos, como chamou um táxi e o ajudou a meter as pernas para dentro e mais os braços e já nem conseguiu pôr o cinto de segurança, que ainda teve um lapso de lucidez e lhe disse entaramelado que já não voltava ali. E não voltou, eles sabem sempre. Percebi que lhe dava prazer contar repetidamente aquela história porque falava no nome dele, gostava dele e ainda gosta. Sou sensível ao acto de gostar de um homem. Lembrei-me do meu, separados, como foi tudo tão rápido desde que soube que era fatal, à tardinha quando o fui ver já tinha uma bomba de morfina ligada à veia e já não era o mesmo, tinha semblante de condenado. Como se passa de um cidadão com rosto de cidadão, para um cidadão com rosto de condenado, de um dia para o outro, sem meio-termo, é de uma admirável transformação. Lamentável. Infame. Passeiam grilhetas de fios translúcidos onde escorrem líquidos com fórmulas químicas muito complexas e suportam a dor. Ficam moídos, viram-se nas camas meias desfeitas, corpos que diariamente perdem peso até ficarem com mãos de cera onde finíssimas veias azuladas contornam os ossos salientes. É tudo muito mau. Perdem a fala, um pouco mais tarde o entendimento, presenteiam, por vezes, quem lhes rodeia a cama com uma gracinha num olhar atento, num esboço de sorriso e os saudáveis comentam imediatamente o ocorrido como quem assiste ao primeiro bater de palminhas num bebé. É tudo muito mau.

O Outono de Novembro é sempre um tempo que os leva.

6 thoughts on “O Outono de Novembro é sempre um tempo que os leva

  1. estou em alerta! meu dia é 22 de novembro. 57ª vez, a próxima. meu pai finou-se a 6… de novembro. teve um AVC aos 57. acabou corroído de cancro até nada mais haver senão dores, dores, dores. das que ninguém houvera de ter. estou alerta! há que fazer vida do tempo que nos resta.
    beijo, amiga. em novembro, um abraço!

  2. o frio. o inverno.
    é.
    perdi o meu pai em janeiro. 98. já passou este tempo todo, e ainda me incomoda isto.
    teve sempre problemas de saude. graves. crown. na altura ninguem sabia o q era. foram cortando intestino até nao haver mais. rastejava em casa no chão com dores. foi operado nao sei quantas vezes. já não me lembro.
    depois coração. operado 3 vezes. de peito aberto. só para recuperar, naquela altura eram 6 meses. a minha mãe, enorme, aguentou tudo.
    estava estabilizado.
    tinha planos para viajar com ela.
    tinha trocado de carro para poderem ir.
    estava animadíssimo
    veio a reforma. para os dois.

    comprou bilhetes de avião.
    ía começar essa fase que ele desejava muito. terminada uma vida de trabalho. duro. muito duro.
    era professor do ensino secundário o meu pai. daqueles que preparava as aulas durante o fim de semana. que estudava a melhor maneira de dar as aulas. que as preparava. q encurtava as férias para preparar os horários dos alunos. teatro. visitas de estudo. eu sei lá..
    tudo parecia correr bem. quando..

    tumba!
    ficou sem rins. diálise. um martírio.
    as idas e vindas a Coimbra eram uma constante.
    desanimou. completamente. uma gripe qualquer, nesse gelado mês de janeiro levou mo.
    ainda acho hoje que ele desistiu. que nao foi a gripe. foi ele que desistiu mesmo. depois de tanta cachaporra no lombo, já não se ergueu mais. não sei. sei lá…

    todos os dias ía com a minha mãe aos Covões. ele estava já na chamada ala da morte.
    todo entubado. só via tubos e grades eu. debatia se como quem caí em ácido, tentando salvar se.
    por vezes pousava os olhos em mim o meu pai. não faço ideia se me via, ou se era coincidência.
    e eu ali, sem poder fazer nada.. a chamar toda a gente, mas toda a gente, que excelentes pessoas ali trabalham pá, me dizia que não havia mais nada a fazer. estava todo envenenado o meu pai.

    não chegou a ver a segunda neta que nasceria em março. minha filha mais nova.

    a minha mãe cá continua. completa 78 agora em janeiro. lá a vou buscar de manha pra irmos à bica e conversar. sobre isto tudo, sobre a politica. sobre o q se passa agora que ela nao pensava voltar a ver. este retorno ao fascismo. fica incomodada. mas quer saber das coisas.

    ainda não tenho paz, sobre esta perda na minha vida.
    não sei se algum dia terei..

    desculpai me
    mas vós puxais por mim.

    obrigado

    paulo

    1. Grande abraço, Paulo! Também viajei muitas vezes para Coimbra, nesse ano de 98. Quem sabe nos tenhamos cruzado numa qualquer esquina da vida? Via dolorosa, muitas vezes esta! Como não haveríamos de responder quando nos apelam todos os sentidos em que se faz de-vida a felicidade?! Grande abraço, Paulo!

  3. Olhem meninos, tudo a ter muito cuidado com a saúde a ver se não nos lixamos. As memórias, ó pá não se apagam, lá terá de ser, ficamos com elas, escreve-se e assim…
    Beijo ao Paulo e beijo ao Manuel.

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