fuga

fui presa por uns chineses que me levaram para uma casa labiríntica sem janelas, melhor, havia janelas mas estavam emparedadas e nada víamos, eu e outras pessoas que lá estavam, homens e mulheres que falavam em burburinho como nos filmes quando há uma cena de restaurante ou de café e põem toda a gente a falar sem nunca se perceber o que dizem, pois era assim que falavam, portanto, só me ouvia a mim tal qual actriz principal, e falava alto, perguntava coisas – mas vocês não fazem nada? temos que sair daqui! com quem se fala para sairmos daqui? – e as pessoas acotovelavam-se nos corredores escuros da casa, conversam umas para as outras como se estivessem numa festa particular em que toda a gente se encosta pelas paredes com um copo na mão e um rosto brilhante, feliz, a sorrir, e eu andava, andava, percorria o labirinto e dava encontrões naquela gente toda e gritava cada vez mais alto – hei, desculpe, posso falar com alguém responsável?- numa tentativa desesperada de encontrar a ordem, a lógica, a organização, até que senti dois braços a agarrarem os meus e com força de homem empurraram-me dali para fora e arrastavam-me quase ao pendurão por entre um mar de gente alojada nos corredores que ao mesmo tempo, até me pareceram os corredores de Santa Maria, frios como a morte e eu já cumprimentei a morte, vocês não acreditam mas é verdade, que usa uma capa preta traçada como um estudante de Coimbra, é alta de porte altivo, tem um cabelo ondulado e farto, louro mesclado de alguns brancos e uns olhos verdes estonteantes, tem uma voz forte e falou-me num português estrangeirado que não reconheci a origem, ah e deu-me um passou-bem como qualquer pessoa educada faz, bem mas adiante, os chineses puxaram-me até um quarto com luz e onde também já estavam muitas pessoas que continuavam a falar, a falar umas com as outras, de depois chegou o chefe dos chineses, que era um chinês gordo e vestido de fato e camisa preta e eu comecei por lhe dizer, que podia arranjar imensas desculpas para ter de sair dali – contar-lhe que tinha dois filhos pequenos e que estavam à minha espera, explicar-lhe que tinha ficado de passar por casa dos meus pais, certificá-lo de que haveria alguém no mundo que, por simplesmente me amar, daria pela minha falta e chamaria a polícia, mas que não, ía pedir-lhe unicamente que me deixasse sair pelo meu pé porque precisava de ar, que ali me sentia oprimida, que o meu país tem uma democracia e não se prendem assim as pessoas e que pronto compreendesse a minha reivindicação, e nisto comecei a chorar, a chorar como quando eu choro devagar e em silêncio que é quase sempre, como quando me correm umas bagas grossas pela cara abaixo numa liberdade doida de água de rio e me escorrem pelo pescoço ou me inundam as mãos se as levo a tapar os olhos. o chinês riu-se de mim, primeiro o chefe, depois o riso contagiou os outros e riram-se todos, os chineses, e eu aí já humilhada chorava mais e com voz de falsete pedia-lhe muito que me libertasse. a minha agonia era-lhes hilariante e riam convulsivamente, atiravam a cabeça para trás, apoiavam a mão na parede, tossiam engasgados, riam-se já uns dos outros e naquele torpor comecei a empurrar as pessoas, as paredes, como doida fazia movimentos psicadélicos e dava urros de mulher índia. para meu espanto as paredes cederam e abriam-se como uma caixa de cartão e aquela encenação toda se desmoronou, os chineses e os outros figurantes ficaram anõezinhos e eclipsaram-se em pequeninos buracos do chão. a franzir os olhos olhei à minha volta, havia sol.

a almofada estava alagada.

8 thoughts on “fuga

  1. lindo. e preocupante. mas um prazer. ler.

    obrigado Luisa.

    haaa eu tambem já cumprimentei a morte. devia ser outra. não tinha olhos azuis nem capas de estudantes nem cabelo. só espinhos e objectos cortantes. havia um coisa em comum. o frio.

    paulo

  2. De volta do café da manhã e o primeiro cigarro do dia…leio avidamente, releio e fico deliciado; por isso o obrigado é imperativo. Curiosa a associação que a maioria de nós fazemos do frio com a morte, que para mim ela se “vista” de Penélope Cruz e que mesmo fria retire o ultimo sopro de vida deste Cota… ;)

      1. São estes dias de chuva, ficamos assim…molengões a pender para o sentimental. Á medida que o tempo avança ficamos talvez mais sensiveis aquilo que nos rodeia, diga-se então que somos Cotas, mas…com estilo. ;)

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