Dá-me luz

Namorisco com um rapaz electricista que anda por lá nas minhas novas instalações de trabalho a resolver pequenas coisas, a terminar a montagem de algumas aparelhagens e a conectar tomadas. Todos os dias me passa pela vidraça do open space e me sorri num Bom Dia infernal e eu retribuo-lhe sempre com uma cara alegre de puro contentamento. Estabelecemos o primeiro contacto quando, no dia da mudança, me achou uma certa graça ao ver-me deitada debaixo das secretárias, como um daqueles mecânicos domingueiros se deita a acariciar as entranhas do popó, a ligar computadores e perante o meu visível desespero, acompanhado de uns merdas sibilados, por ser precisa uma força brutal para conectar as tomadas às caixas de interruptores, e eu não a ter, se me chegou perto, me tirou delicadamente os cabos e tomadas da mão e me disse com um meio sorriso condescendente que deixasse aquilo, que ele acabava. Nem resisti, entreguei-lhe o material com um reconhecido obrigada e presenteei-o com uma troca de olhar de completa sintonia. Magrizela, caga-tacos, com um arzito de miúdo, que é, embora com um rosto marcado e de pele gasta pela dureza do trabalho, por certo iniciado em tenra idade, uma série de piercings nas orelhas, discretos no entanto, cabelo rapado e calças de ganga gingonas com aplicações de metal, tem o arrojo de manter aquela intimidade virtual comigo, procura-me com os olhos quando passo para a máquina do café e ele agarrado a duas pontas descarnadas de cabo eléctrico e alicate na boca, ou segue-me os passos quando volto da máquina da água a beberricar pela garrafa, e sim, é óbvio, tem uma pinta doida de malandro mas digo-lhe sempre uns olás prolongados que escorregam para uns sorrisos, digamos, simpáticos.

Como dizia a Cidália, oh God, make me good but not yet.

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6 thoughts on “Dá-me luz

  1. O namoro é, sem sombra de dúvida, a melhor invenção humana! :-)
    Do enamoramento se perde, porque nele se concentra, toda a noção de tempo. Há estado mais feliz que o seu pleno gozo? Nem que apenas adivinhado…
    Namorar a vida, amiga, tu sabes… muito e bem! :-)

    1. Tu, que já ‘me segues’ há uns tempos, seguimo-nos, és um condescendente com as minhas historietas e é por isso que me dá um enorme prazer contar-tas. Adivinhas-me os sentidos. As pessoas são muito giras realmente!
      Obrigada Manuel.

  2. E que agradáveis são, às vezes, esses namoros de “olhar e sorriso”. E o que se desespera, às vezes, quando se sabe que não podem passar disso mesmo, olhares e sorrisos.
    Ai, ai…

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