Recomeçar

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Recomecei a horta. Outono. Faz um ano consegui em leilão a concessão do pedacinho de terra que cultivo na cidade e me deu, me dá, uma felicidade sem par. Recomeçar não custa tanto, houve um ano de uma imensa aprendizagem e de conhecimento da dureza do trabalho. Já não me queixo de dores nem do cansaço extremo com que o meu físico de mulher de escritório fica, já sei que é assim e aceito com o prazer de noiva do dia do seu casamento.
No Outono arrancam-se as culturas secas pelo calor do Verão, os tomateiros, feijoeiros, pimenteiros, e abre-se a terra à enxada, cavadelas profundas, deixamo-la arejar, estrumamo-la, e louvamo-la ao Senhor, pois é dali que lhe vamos tirar os frutos do Inverno agreste que se avizinha. Depois abrem-se regos e atira-se-lhe sementes de nabiça ou espinafre ou plantam-se as couves para comer no Natal – lá deixei corações-de-boi, lombardas, portuguesa e brócolos. E vemos as vidas pequeninas a vingar, os pezinhos frágeis vão tornar-se em couves farfalhudas de sustância e das sementes por magia, crescem folhas verdes para fazer os esparregados e as sopas.
Recomecei com prazer redobrado porque sei que a terra me deixa antever o amanhã, e nada mais tenho que o permita neste país desgraçado onde vivo, recomecei com mais vontade porque já sei que, dentro de muito pouco tempo, todos os meus esforços vão ser recompensados com maravilhosos frutos, em contraste com o trabalho a que chamo emprego que, quase sempre se dedica a premiar exclusivamente, a inépcia.

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