Shifts

Amanhã mudo-me. Como as meninas, mudo de zona. Desconheço a minha futura área envolvente ao trabalho. Também não sei quanto tempo demoro de manhã a chegar e quanto tempo roubo ao meu dia para regressar a casa. Não sei onde vou tomar um café, almoçar ou dar uma volta. Não conheço o tipo de homens e mulheres que frequentam a zona e tenho receio de me sentir só. Mesmo que não goste tenho de ficar, simplesmente porque ainda agora me mudei. Enchi três caixotes e meio com os meus livros e papéis, tirei-os do armário alto e amanhã estarão num outro que me irá ser atribuído. Não sei se poderei colar ou expor os postais culturais que roubo do escaparate do King e que coleciono. Tenho pavor que o meu posto de trabalho seja escuro e barulhento. Nas arrumações encontrei uma pasta com recibos de ordenado em escudos. Gostei de rever o escudo e pensando bem, enquanto ganhei em escudos nunca tive de contar os tostões. Nunca como agora. Saltaram-me folhas dobradas em quatro com escritos meus de dentro dos livros que encaixotei – são ensaios de respostas a perguntas que me foram endereçadas, deambulações pela minha vida em pequenas frases lacónicas e esquiços de cartas de amor. Sei, que muito de tudo aquilo nunca saiu do papel, mas que tomou enorme importância num momento qualquer a que o tempo chama hoje, de ontem e anteontem, por isso o guardei num livro que li ou desfolhei e reservo numa estante segura e perto de mim.

Recordações. Anos, meses, dias, horas e minutos vividos lá atrás. Coisas assim como estas:

«(…) as coisas surtem efeito porque fazemos um jogo mental que ambos suportamos, (embora te confesse que fico à beira de um ataque de nervos com regularidade) (…)» ou,
«(…) lembro-me do sino da Igreja de Fátima a tocar, (os sinos dão-me paz) e eu a sentir-me entrar no inferno (…)» ou,
«(…) a nossa “relação” é um caso interessantíssimo para estudo,talvez só seja interessante porque se passa entre mim e ti, porque temos originalidade no que fazemos, porque somos “engenhosos” e somos do tipo “engraçado” (coisa que não é para todos) (…) ou,
«(…) somos duas águas dentro de um tanque. eu sou clara, límpida, inodora, incolor, mas turbulenta e agitada. tu és uma água turva, às vezes cinzenta, esverdeada, às vezes parece tornar-se clara e pura mas não se sabe se és uma água própria para consumo, penso que nem tu próprio o sabes. no entanto, quando nos misturamos, resulta uma solução na tua tonalidade com a minha inquietude, um resultado estranho, fascinante, perigoso, que adoramos (…)»

Tudo tão passado. Como me é agora difícil identificar tal água do Luso.

7 thoughts on “Shifts

  1. Somos por natureza um pouco avessos a mudanças mas por vezes é o que precisamos sem no entanto termos bem a noção disso mesmo. Optimismo acima de tudo, é que a vida às vezes é assim…uma caixinha de surpresas :)

    1. essa coisa das ‘surpresas’ vejo-a assim: a cada um de nós foi atribuído um saquinho delas quando nasceu para que vão sendo usadas durante a vida; ou muito me engano ou o meu saquinho já está vazio.

      mas sim, todos nos querem optimistas e coisa e tal…

      1. Espero que esteja enganada, com mais ou menos optmismo quero acreditar que a vida ainda nos reserva algumas surpresas senão isto não teria muita graça…palavra de cota :)

Diga-me...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s