Livros de férias

Para dar por terminado o período de férias, deixo nota dos quatro livros que li nas três semanas que fugi a Lisboa e à rotina do resto do ano.

I – Isabel Allende 

Comecei com a Allende, autora que não consigo deixar de comprar pelas belíssimas memórias que tenho de tudo o que já escreveu e eu li, note-se que, embora ultimamente se tenha dedicado a deixar obras às suas crianças e aos seus adolescentes (1), pressuponho netos ou já bisnetos, continua a ter uma escrita que se lê num fôlego com narrativas aventurosas e personagens que nos cativam pelo arrojo, dando obviamente um ênfase merecido às mulheres, são sempre as mulheres as heroínas e as pecadoras das histórias dela. Depois, nota-se cada vez mais o apego e as recordações vivas ao seu país natal, o Chile, e leva-nos até lá constantemente deixando-nos absolutamente desejosos por conhecer aquelas tradições, sabores, gentes.
O Caderno de Maya é a história de uma adolescente rebelde criada por uma família desconexa mas repleta de amor e sentimentos tribais, tal qual Isabel apelida carinhosamente a sua família – a minha tribo (2).

(1)

  • 2002 – A cidade das feras
  • 2003 – O reino do dragão de ouro
  • 2004 – O bosque dos Pigmeus
  • 2005 – Zorro, começa a lenda
  • 2009 – A ilha sob o mar
  • 2011 – O Caderno de Maya

(2)

  • 2007 – A soma dos Dias

II – Clara Pinto Correia

De seguida saltei para a Clarinha Pinto Correia que igualmente me recorda três boas coisas – O Adeus Princesa (1985), Ponto Pé de Flor (1990) e o Sapo Francisquinho (1998) – e lá lhe comprei este livrinho de título, Não podemos Ver o Vento, sobretudo por que anunciava a capa – ‘uma história arrepiante que revela os abismos da alma humana e os segredos mais bem guardados da nossa guerra’. Tratava-se da nossa guerra, a colonial portanto, um tema que me interessa ler até à exaustão e sob todos os pontos de vista, e zás lá vem a Clarinha parar ao meu monte de leituras. O que é o livro? Uma farsa, um embuste, uma brincadeira de mau gosto. A Clarinha tem de ficar a perceber que, falar de stress de guerra da maneira leviana como o descreveu mereceria um castigo e que a editora Clube do Autor, tem de urgentemente rever os conceitos do que é, ‘uma história arrepiante’ e o que são, ‘segredos bem guardados’. Também não percebo porque é que para parecer giro e muito modernaço, é preciso caracterizar uma mulher divorciada de Lisboa, que tem um emprego, dá mais umas aulas, tem duas filhas a cargo e um amante esporádico no Norte, tudo coisas normalíssimas, como uma consumidora de charros a toda a hora inclusivamente antes de ter sexo da treta com o tal homem. A Clarinha informa-nos igualmente que, tem um bom andamento com homens, sabe muito da vida e coisa e tal (foi por isso que me referi a este livro no post, Where) e de repente deu-me uma sensação, de repulsa por sinal, que tinha estado a ler a idiota da Margarida Rebelo Pinto porque aquilo descambou numa verdadeira patetice. Foi um susto, uma perda de tempo.
E sobre guerra colonial, ainda nada destrona a Autópsia de um Mar em Ruínas (1984), do João de Melo, mas isso a Clarinha já devia saber.

III – João Ricardo Pedro

Assim que me desfiz do anterior atirei-me para os braços do João Ricardo Pedro, tinha jurado que o lia nas férias, e só posso dizer que: amei, amei, amei. Escreveu-o com raiva, com desdém, com vontade de partir as fuças a muita gente, sem o dirigir a público nenhum mas antes a si mesmo e só isso, agrada-me. Mas depois revela uma bondade intrínseca linda, maravilhosa, põe as personagens a cruzarem-se um dia na vida dando tempo ao tempo, com suavidade, porque na nossa vida também é assim. E escreve muito bem, os meninos a terem de comer os olhos do gato e o olho de vidro do Celestino, as alheiras de Laura, a música de Duarte, o cancro da mãe do Duarte, o regresso da guerra do pai do Duarte, o stress de guerra do pai do Duarte e o Policarpo.
Este homem tem de escrever mais.

Comeu um iogurte natural. Comeu metade de uma banana. Lavou os dentes. Saiu de casa. Chamou o elevador, mas a luz do botão não se acendeu. Esperou seis segundos, voltou a carregar no botão. Nada. Desceu as escadas: três andares. A porta do prédio escapou-lhe das mãos, fechou-se num estrondo.

IV – Anne Enright

Os dias já chegavam ao fim quando peguei na Valsa Esquecida, livro que comprei sem qualquer referência, uma autora vencedora do Booker Prize, irlandesa e eu sou fã dos escritores contemporâneos irlandeses. É um livro escrito por uma mulher, narrado por uma mulher a falar da paixão vivida por uma mulher mas, julgo que qualquer homem se interessaria por o ler. Li-o avidamente até à parte III e depois com dificuldade para o terminar. Que diabo me interessa aquela descrição tão exaustiva e fastidiosa da filha de 12 anos do namorado?

Depois de fazermos amor – coisa que fazíamos sempre em primeiro lugar, quase por medo de nos tornarmos amigos -, quando nos sentíamos em segurança, o Séan falava comigo da sua vida e eu mostrava-me interessada e olhava para ele ao meu lado, deslumbrada com os pormenores.

Diga-me...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s