Mecanismos de segurança

Tocou-me agora à porta lá de baixo um rapaz que se identificou pelo seu nome pertencente a uma nova empresa de sistemas e dispositivos de segurança para lares e pedia-me ele uns minutos de atenção para me explicar os mecanismos, automatismos, protectores da minha pessoa, bens e respectiva casinha. Fui-lhe dizendo que não estava muito interessada em possuir um sistema de segurança seguro que nunca tinha pensado nisso, mas ele de voz pausada e bem colocada, educado por sinal, alertava-me para o facto de estar a haver uma onda de assaltos nesta zona, se isso não me assustava e porque não conhecer quais as ferramentas que podem estar à minha disposição por uma módica quantia se a minha vida vale ouro?! Persuasivo, tranquilo, eu, agi como uma verdadeira dona de casa e fui-lhe dando conversa pelo telefone de porta, encostada à umbreira a assoar o pingo à ponta do avental, eterna sinusite,  quiçá carente de uma voz e de atenção. Fui-lhe explicando no entanto que, assaltada já o era todos os dias, e ele, ai sim, sim digo eu, sou assaltada diariamente pela televisão e jornais, pelo Coelho, pelo Relvas e pelo Gaspar, que de todos eram mesmo os piores ladrões que conhecia, tinham uma lata desgraçada e voltavam à mesma casa, à mesma família, à mesma carteira, todos os santos dias e para esse mal, não havia nenhuma empresa de segurança que me resolvesse o problema.

O rapaz por fim percebeu, pediu-me desculpa pelo incómodo e obrigada pela atenção, se lhe podia abrir a porta do prédio para tocar aos outros vizinhos. Disse-lhe que não, não podia, que era a Administradora e tinha de dar o exemplo. Voltou-me a agradecer. Acho que ficámos amigos.

2 thoughts on “Mecanismos de segurança

  1. Gostei muito da forma como escreve. Em poucas linhas, muitas ideias. Fico feliz que tenha feito uma nova amizade, é sempre importante ampliar ao máximo os círculos sociais, no entanto, de alguma forma, ainda me resta algum resquício de pena. O pobre vendedor com toda a certeza foi incumbido de inconvenientemente vender-lhe “os produtos de mais alta segurança”. Talvez tivessem sido verdadeiramente amigos, talvez até, pudesse ser ele o homem da sua vida. Mas quem saberá? Ele tinha um proposito, e enquanto proposito, ele não podia ser nada mais. Nem conveniente, nem verdadeiro amigo.

    1. quem sabe seria ele. foi um momento na minha vida em que dei atenção a uma pessoa desconhecida que não me era nada, que normalmente ignoro com uma superioridade idiota e afinal era um homem afável que me deu conversa, que me entreteve, que me fez companhia. (…) “Vivo com completos estranhos. Indiferentes à mim e a minha realidade. Se não o são, os faço ser a meu proveito.”

      cheguei ao seu blog por outro blog que por sua vez me tinha sido dado por outro ainda e Constance adorei aquela luz ténue, penumbra, que me acolheu quando abri a sua porta. sinceramente este comentário seu, “Trecho de algo que pode vir a se tornar alguma coisa” é tão interessante, senti-me próxima, tenho frases assim escritas em livros que trago na carteira, folhas, talões de multibanco, são uns pensamentos que nos invadem e aquilo tem de sair de nós.

      chegamo-nos uns aos outros assim, muito benvinda e muito obrigada.

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