Londres

Fui assistir ao Londres. Tenho sempre muito respeito pelos monólogos e pelos actores que os fazem no palco que fica um mundo com eles sozinhos a dissertar para nós, público. O último monólogo brilhante que ouvi, foi o da Maria João Luis no São Luiz na peça Stabat Mater, isto em 2011. Chorei baba e ranho ainda me lembro, ela a gritar pelo filho preso que era o seu único filho e eu a assoar-me em surdina no São Luiz.

O Londres é um conto, um texto adolescente, jeitosinho, mas faltam-se pregas, cós e um chuleio na bainha. A actriz que o representa é bonita, tem corpo de bailarina e a Isa Silva fotografa muito bem. Naquilo tudo há no entanto alguns pontos interessantes, o recurso a cameras localizadas que filmam gestos e expressões, visíveis em três telas onde também passam imagens que nos alargam o campo de visão da narração e, o descrever da necessidade que os velhos têm de ir constantemente à casa de banho. Aconteceu-me o mesmo quando no outro dia passei oito horas na urgência de Santa Maria com o AVC do meu pai. Então não é que, desequilibrado, estonteado, com a visão perturbada, fraco de nada comer aquelas horas todas, me passou a vida com vontade de ir à casa de banho?! Porra que aquilo foi demais! Foi xixi a toda a hora e uma das vezes, que até tive de lhe ir bater à porta tal foi a demora e o susto em que me pôs a pensar que estaria de boca ao lado sentado na retrete, fez cocó. Depois tive que o ajudar a levantar, metido naquele cubículo mal cheiroso, iluminado com uma lâmpada amarelecida e gasta enquanto dava cuzadas à porta que tinha uma mola e teimava em fechar. Eles depois lá se compõem num gestos trapalhões, camisa ponta acima, ponta abaixo, cinto por apertar e braguilha entreaberta, e é nestas alturas que me lembro que temos um corpo reles que vai acabar por apodrecer e que portanto me estou nas tintas para toda a merda em que tenha de mexer enquanto viva.
Também gostei da exclamação dela quando, olhava um homem com aspecto decente, vestido com gosto e discrição, com ar de trabalhador, bom pai, marido e amigo, a dizer:   “– mas porque é que eu não arranjei um marido assim?” Confesso que, já repeti esta frase vezes sem conta, talvez porque repare muito nas pessoas e também em homens.
Queria também dizer que, escrever textos sobre pais velhos, a doença, o cancro, e as crises existenciais das filhas dos pais velhos, é muitíssimo útil pela acutilância e actualidade do tema e porque toda a gente gosta de se rever em histórias contadas pelos outros.

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