Metro

Por motivos profissionais, por necessidade de ter de me deslocar entre edifícios, tenho ultimamente andado mais de Metro. Os Metros agora, desde que temos o Estado-de-Sítio da Crise implementado no país, são curtos, isto é, só têm três carruagens o que faz da estação uma plataforma gigantesca para um comboiozinho que pára sempre lá à frente e nos faz correr porque estamos sempre cá atrás, para então nos enfiarmos numa das ditas carruagens que nunca espera por nós.  Também há menos Metros por hora, o que faz com que o tempo de espera na plataforma se prolongue e as três carruagens do Metro pequeno se atafulhem de povo metropolizado. Lá dentro do Metro cheira mal, não que esteja quente porque existe ar condicionado e o nosso Metro é até dos mais aprazíveis da Europa, mas porque há calor cá fora e as pessoas transportam-no lá para dentro em processos de sudação que lhes permitem reestabelecer um equilíbrio fisiológico. Tresanda a suor. Há suor de Leste, do Brasil, Monhé, catinga de Preto e um ácido e pestilento do Branco Nacional que talvez seja o pior. Eu própria cheiro mal que tomba desde que comecei a usar um desodorizante sem alumínio, daqueles muito caros que só se compram nas farmácias, porque me convenceram que os outros de supermercado, com alumínio, fazem o cancro da mama. O menino que trazia o cãozito ao ombro e tocava acordeão enquanto pedia esmola, está um homem, tem barba, continua com o cão ao ombro e um acordeão ao peito. O rapaz cego de olhos translúcidos que com um bastão de metal produzia um ritmo infernal Metro fora enquanto anunciava a plenos pulmões,  ’olhem que eu continuo apreciar uma esmola que me possam dar’, está mais velho, escanzelado, permanece o rei da percussão Metropolitana, bate no chão e nos tubos metálicos de sustentação mas já não diz nada, percorre carruagens numa correria louca e alucina-se com os barulhos ritmados que produz. No Metro fala-se agora ao telemóvel, portanto, há muito mais gente a falar sozinha e há sempre conversas audíveis. Quem fala mais alto são, as Pretas pobres em dialectos africanos e as Brancas que moram nos mesmos bairros do que as Pretas, com asneirões sucessivos. Os mais jovens numa loucura frenética e patogénica mexem nos telemóveis com os dois polegares a mandar mensagens escritas em hieróglifos de abreviaturas, mostrando-nos que têm sempre com quem comunicar. O povo do Metro tem um rosto cada vez mais triste e veste-se pior. Há adolescentes mais estranhos, mais adultos jovens com um ar precário e muito mais gente velha. O Metro traduz o país na sua generalidade mais os desvios padrões que cada vez mais lá andam a fazer alargar a mediana. Mas o Metro mostra uma coisa muito gira, lê-se cada vez mais. Há livros abertos nos colos e marcadores suspensos numa das mãos, aliás, o que eu queria mesmo dizer desde que comecei a escrever é que o Metro é isto tudo, mas lá leio e no automóvel não.

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