Ouro

Reparei hoje que na loja de candeeiros que desde sempre existiu na minha zona, nesta parte de Lisboa que foi muito moderna em 1974-1975-1976, que foi estreada por uma classe média constituída por professores, oficiais, técnicos superiores e gente de profissões liberais, médicos, engenheiros, advogados, que nesses anos 70 ganhavam apenas um pouco mais que a média mas que se tornariam nos anos 80 e 90 numa classe média alta e até alta, mas dizia eu que, a loja grande que ali existia, que vendia lustres, apliques, candeeiros de cozinha e prás mesinhas de cabeceira, qual não é o meu espanto foi substituída por uma loja d’ouro. Sinceramente, aqui no bairro depois da entrada de uma ou duas lojas de chineses que me perturbaram porque, expulsaram dois estabelecimentos que me eram familiares, ainda nada mais me tinha incomodado tanto como esta da loja d’ouro. Via-se da porta uma gaja enfezada por detrás de um guiché com uma portinhola de vidro, possivelmente à espera que gente do meu bairro lhe entregasse os ouros, os fios, os anéis, as lembranças dos baptizados dos filhos, a filha da mãe! Mas grave, grave, é o mau sinal que isto indicia. Eu e a minha gente estamos em maus lençóis – qual profissão de técnico superior, qual reformado da marinha, qual professor universitário? Já não interessa nada, somente sabemos que temos contas a pagar, muitas contas. Investimos seriamente na casa, nos carros, nos filhos, na profissão, no bem-estar da família, na cultura, no ensino, na saúde atenta e na prevenção. Ganhávamos, porque já não ganhamos, para manter o nível de vida que criámos e foi a nossa própria educação e cultura que nos levou a procurar a vida que fazíamos. Contudo, tínhamos, porque já temos,  toda a certeza que, o investimento com que premiávamos a família traria lucros para nós e por arrasto para o país.

De repente está uma loja d’ouro prantada no meu bairro pronta para sacar as recordações aos aflitos. É uma injúria. Não merecemos isto.

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6 thoughts on “Ouro

  1. tal qual a IURD. instalam se em sítios de desigualdades extremas.
    em países de 4 ou 5 mundo.
    em locais de conflito social aberto,
    de desemprego,
    em locais de miséria e fome.

    tal qual a boiada que nos aborda nos hipermercados a impingir cartoes de crédito.

    em Angola hoje grita se. tudo pra Portugal e em força!
    sim, não tenhamos ilusões sobre quem (se)nos governa hoje.

    já vamos à Colombia tentar vender o resto das empresas(ouro) que ficaram.

    que vergonha. que nojo destas coisas que nos olham de cima sem sequer estar ao nível da sola dos nossos sapatos.

    paulo

    1. exactamente Paulo, lembram as IURD’s sim. sabes o que são, necrófagos. alimentam-se dos restos mortais dos outros, das fraquezas dos outros. Gente ordinária, é o que é.
      a vontade que eu tenho de um dia destes fazer uma asneira, perdão, uma coisa bem feita…

  2. Na minha “aldeia” é o mesmo mas além da loja d’ouro asiste-se também a inexplicavél invasão de parafarmacias, um exagero na minha opinão!
    Será que daqui a uns tempos veremos anuncios berrantes numa parafarmacia tipo “Liquidação Total – descontos até 80%”? E as pessoas disputando a compra de 2 caixas de medicamentos pelo preço de 1?

    1. essa das parafarmacias tb tem que se lhe diga; é uma invenção para pedir mais dinheiro por uma simples bisnaga de Halibute, sim porque a compra faz-se num ambiente agradável sem a gente doente que vai para as farmácias e é-nos fornecido o produto por uma menina de bata de branca o que lhe confere um grau de entendida no assunto; nas farmácias por sua vez, também só falta venderem hortaliça biológica ou utensílios pró prazer sexual (e se calhar estou a dar-lhes ideias), porque se tornaram numa feira vergonhosa.
      sobre as promoções, até já se fazem nas farmácias aqui em Lisboa, cremes, e outras merdices.
      é este tipo de serviços que geram um emprego que não interessa a ninguém, é só disto que prolifera neste país, parecem ortigas que crescem até na careca de um padre, se se criasse industria farmacêutica em vez de parafarmacias, isso é que era!
      mas esta das lojas d’ouro causa-me mais mossa, é trocar os anéis por comida como se estivéssemos numa permuta, na guerra é que se faz isto, e pelo vistos no desespero….

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