Cartas aos filhos

Mário,
Quando fores a um evento importante com muita gente, não esperes por estar aflito para procurar uma casa de banho, porque podes chegar lá e teres de esperar muito tempo na fila!
O provérbio diz: «Homem prevenido vale por dois» e eu digo: «Homem de bexiga cheia é como estar livre dentro de uma cadeia»!
Adoro-te!
22.01.2012

(in Cartas a Mário)

Mário,
A cortesia está a cair em desuso. Parece que pedir por favor, agradecer e dizer bom dia às pessoas quando se chega a determinado local não está na moda. Parece que as pessoas que são bem educadas são logo etiquetadas de «cotas»! E é pena!
Sabias que a cortesia não se destina aos fracos, mas às pessoas com carácter? Quando entras numa loja e dizes bom dia, destacas-te de todos os outros anónimos que estão presentes na loja e ignoraram a pessoa que os iria atender. Quando alguém não quer dar-te algo, se pedires por favor, desarmas a pessoa que se recusa. Quando agradeces, olhando nos olhos, para a próxima serás muito bem atendido.
Mostra que os outros te interessam quando respondes às suas cartas, aos seus emails e às suas mensagens. Se não disseres nada, vão tomar como garantido que és mais um que não quer saber delas…
Se por acaso não te responderem aos bons dias, nem te tratarem melhor por dizer por favor e obrigado, não desistas. As pessoas acostumaram-se à má educação e à falta de civismo e custa-lhes aceitar que ainda há pessoas diferentes no mundo.
A cortesia está estreitamente ligada ao respeito e todos os grandes lideres sabem disso. Tu és uma pessoa sociável e um dia vais ser uma grande lider com cortesia.
Adoro-te!
14.12.2012

(in Cartas a Mário)

Sara,

Não sei se vais gostar mais de números do que de letras. É bom gostares de ambos, mas há sempre uma preferência natural.
No meu caso, quando era pequenina, gostava tanto do A e do 4 que, às vezes, confundia os dois. Na verdade, ambos são bicudos, fazem-me lembrar uma casinha em madeira que foi construída no topo de uma árvore.
Depois, fui gostando mais das palavras. Gosto do som das palavras, da combinação de sons especiais que algumas letras juntas criam. Gostava especialmente da palavra (lida à francesa i.e. carregando nos is e nos as) «Himalaya» e gostava do som que a língua fazia quando dizia «coquelicot».
Já pequenina, tens um sentido de humor especial, ris-te com a sonoridade de algumas palavras. Porém já identificas melhor alguns algarismos do que algumas letras.
Talvez vás gostar mais de números, contudo, espero que continues sempre a fruir as palavras na tua boca como se fossem pequenos quadrados de chocolate saboreados com prazer, porque só assim poderás compreender a magia das palavras…
Adoro-te!
03.06.2012

(in Cartas a Sara)

Sara,
Há duas emoções que parecem fazer bem no momento em que acontecem, mas na realidade só gerem destruição que são a cólera/ira e a raiva.
A raiva é sempre interior e de repente sobe pelo corpo acima e quando se transforma em palavras e em gritos é cólera. A cólera é um tirano que domina o nosso corpo sem conseguirmos controlar o que dizemos e fazemos. Chegamos muitas vezes ao exagero e é claro que, passado alguns momentos, arrependemo-nos não só do ataque de cólera como daquilo que atiramos à cara de quem nos ofendeu ou nem por isso, usando as palavras como se fossem murros e pontapés.
Não te estou a dizer que deves parar toda a raiva e toda a cólera que poderás sentir, é óbvio que não. Apenas estou a tentar mostrar-te que se perdes o auto-controlo e agrides alguém com a tua cólera, em vez de seres forte, estás a perder e a dar poder a quem te ofendeu. Naquele momento, se o seu objectivo era mesmo ofender-te, consegui-o e está em poder das tuas emoções. Achas bem que essa pessoa obtenha poder sobre ti da pior forma? Não!
Por isso, sempre que sentires raiva de alguém, tenta ultrapassar isso, escrevendo num diário, imaginando essa pessoa em situações ridículas de forma a tirar-lhe o domínio que tem sobre ti e assim quando houver confronto, será mais fácil conseguires dominar o que sentes.
Uma vez, uma pessoa disse-me que a pior vingança que eu podia ter relativamente a alguém que me fez mal, traiu e dilacerou o coração é esquecer que ela existe. Se esquecermos essa pessoa, ela deixa de existir e deixa totalmente de nos afectar e isso é realmente a melhor forma de nos vingarmos de alguém.
Adoro-te filha, que tenhas sempre o bom senso de controlares a fúria, a cólera e a raiva!
01.05.2012

(in Cartas a Sara)

Criei o meu primeiro blog em 2006 incentivada pela Jacky. Em 2006 o Pedro criou-me o meu primeiro endereço gmail e em 2006 comecei a ler o que se escrevia na blogoesfera e na Internet de uma forma geral. Até 2006, a Internet era por mim unicamente reservada ao consumo profissional. Tenho portanto 6 anos desta brincadeira e como dizia outro dia a um blogger: eu aprendo é tudo muito depressa. É que foi mesmo, que rapidez e onde isto nos leva!
Mas dizia eu que, dava os primeiros passos tímidos pelo mundo digital e encontro o Amorizade, termo fabuloso e ainda por cima eu tão dada a amorizades, onde acanhada comecei a comentar umas coisas, a participar nas eternas charadas da Jacky e mais tarde a escrever um texto de um Pai Natal que deixou a chata da mulher e se pirou pró Brasil onde arranjou uma mulata analfabeta mas boazona e com quem vivia feliz. E foi assim – escreves tão bem porque não começas um Blog, acho que devias publicar os teus textos, tiros ao cesto pardais ao ninho e arranquei. Primeiro uma coisa muito intimista chamada MeuDia (era assim que ele me chamava, lindo não é?), mas que na verdade não passou de uma imatura experiência, tendo contudo assistido à alucinante  revolução que se seguiria na minha vida. Depois, porque tudo termina, reiniciei-me no OutofWorld numa imensa fuga que fiz, uma travessia longa de deserto que realmente me deixou noutro mundo.
Quanto à Jacky, conhecia-a pessoalmente numa ida ao São Luiz para assistirmos ao Cabeças no Ar, um musical com letras do Carlos T, Rui Veloso, com Manuel Paulo ao piano, numa noite de Dezembro de 2007 em que choveu tanto, mas tanto, que chegámos ao teatro molhadas até às cuecas e se bem me lembro com o prenúncio de uma grandessíssima constipação que se seguiu.
Actualmente somos também amigas no Facebook e hoje convida-me ela para fazer um like nas páginas, Cartas a Mário e Cartas a Sara, nomes dos seus dois filhos que, imediatamente fui espreitar e motivaram este post, tal foi o encanto com que li as pequenas-grandes mensagens que ela passa por escrito aos filhos dela e porque não aos filhos dos outros.
É de mulher corajosa o que ela escreve, e o interessante é que há ali presente a fragilidade das nossas vidas, a ausência pela morte, o legado que, como mães de crias queremos deixar se por palavras não tivermos tempo, ou se as palavras não saírem, ou se eles filhos, não nos derem a atenção devida.
É preciso avisá-los que devem pôr o chapéu por causa do sol, que devem levar um casaquinho porque arrefece de noite, que os amores terminam sem ouvirmos uma canção romântica como nos filmes, que as portas se fecham e ficamos sós ou que, quando se vai para uma reunião importante devemos antes fazer um xixi.

São coisas destas que me fazem sorrir e eu sorrio cada vez menos.

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5 thoughts on “Cartas aos filhos

  1. só para dizer que fiquei encantado com essas cartas. com o teu texto Luisa.
    eu tive um Pai um dia. ía com ele sempre que podia em miudo. era extraordinário, que ele dizia bom dia e boa tarde a todos. era de tal ordem, que passado uns anos, fiquei com a sensação que conhecia toda a gente. de alguma maniera confirmar, como se preciso fosse, o que foi dito sobre cordialidade.
    sobre cólera, aí o especialista sou eu. ando a tentar emendar me. não é fácil. muitas vezes sinto exactamente isso. ofendem me. e conseguem. porque a minha cólera me faz perder toda a razão que eventualmente possa ter.

    como me revi nisso. muito obrigado.

    paulo

    sim, ‘Amorizade’ <–
    é de facto uma palavra a ter em conta. muito em conta.

    1. as almas boas ficam encantadas com cartas como estas, digo eu, não sei….

      sobre o meu Pai um dia destes escrevo, se tiver coragem claro; a senilidade para onde caminha a passos largos, faz-me achar toda a realidade muito estúpida.

      1. a realidade é mesmo estúpida minha cara Amiga.
        não te preocupes com a coragem. tens tudo no sítio :)

        a mim sobrou me uma Mãe. que tento preservar. mulher transmontana, rija, inteligente, educada… professora de matemática como deve ser. formava professores. mulher de teatro.
        que alarvidade, que obscenidade que fazem com os reformados…
        envergonha me esta gente que mandou o governo anterior abaixo.. na verdade, atiça-me a cólera.. lá está..

        isto tem que rebentar um dia. dê lá por onde der…

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