Contraluz

Há dias em que ando o tempo todo a matutar numa pessoa. Nunca é uma pessoa qualquer, é sempre daquelas pessoas que desaparecem da minha vida, desapareceram melhor dito e o tempo correcto, até porque em nenhuma delas vislumbro hipóteses de volta. Mas não sei bem porque é que isto me acontece, acordo, arranjo-me e muitas vezes é quando estou debruçada sobre o lavatório encastrado na pedra mármore, enquanto desenho um risco azul a debruar-me os olhos, que estão mais pequenos, menos vivos e quase sem pestanas, me vem à memória essa pessoa. Click, acende-se uma luz, ilumina-se uma das muitas caixas escuras da minha vida, e de soslaio olho uma cabeça com pescoço que me olha viva com o semblante de sempre. De sempre na minha lembrança, porque uma pessoa toma todas as cores no rosto e se a conhecermos melhor, sabemos que faz todas as expressões possíveis com os trejeitos da boca, dos olhos, das maçãs do rosto, das rugas da testa, das mãos pela cara, do formato do cabelo, do descair da cabeça enquanto fala e das tonalidades da voz. Guardo escrupulosamente para todas estas pessoas que desapareceram a última cara com que as vi, não sendo esta, no entanto, que me olha quando a luz de camarim da sua caixa preta se acende. Penso que a minha memória funciona um bocadinho como  o Facebook, dando-me fotografias do perfil dos meus ‘mortos’, fazendo sobressair aquelas que se associam aos principais marcos da minha relação com eles.

Bem, mas a verdade é que quando me olho muito perto do espelho, quando estou naquele equilíbrio de um só pé a desenhar o olho, que a minha consciência choca com o espelhado e lá vem um fantasma o dia todo comigo. Normalmente revejo o seu desaparecimento, as razões, culpo-me pelas razões que se fosse hoje tudo seria diferente. Por momentos afasto-o do pensamento tal animal peganhento, chato, depois com a música do carro ele volta, senta-se ao meu lado e eu conduzo e é quando começo a achar que realmente tive uma certa razão em dizer o que disse e fazer o que fiz, caramba, eu tento ser uma pessoa razoável, respeitadora, eu, com aspectozinho tão equilibrado. Louca? Sim, sim, e sim, impossível ser boa da cabeça com as taras todas que eu tenho das sete vidas que já vivi. Mas que estupidez o que estou aqui a escrever, mais quais taras? Mas quem és tu mais do que as outras vidas, essas sim, de gato vira-latas? Tem mas é juizinho menina!

E ando nisto, neste baloiço que me enjoa, para cá e para lá em questões existencialistas.

Mas o dia continua, e o figurão lá vai populando as minhas recordações – foi tão divertido o tempo que passámos juntos e parecíamos tão deliciosamente compinchas nas opiniões. E depois? Se se foi embora é porque tinha de ser, é porque não te merecia ora essa? Tomara haver muitas como tu! A cabra não se cala e na verdade bem sei o que ganhei – uma caixa escura, com uma cabeça decepada, rosto esculpido na cera das minhas lembranças, com uma lâmpada de camarim e respectivo interruptor. Que grande coisa! Uma box, consigo transportá-la à mão até,  aliás fui eu que a arrumei na devida dispensa e prateleira como boa coleccionadora que sou.

Eu nestes dias não acho graça nenhuma.

(hoje esqueci-me das passwords dos portáteis para a formação, a empregada ligou-me a dizer que a chave dela não abria a porta, tentei ligar para o emprego à busca das passwords e ninguém me atendeu, o único número de telemóvel que tinha, o tipo estava de férias, os meus filhos não puderam safar a chave e a porta à empregada porque estavam nas aulas, o parquímetro estava avariado e levei a manhã toda com angústia de carro bloqueado, choveu, não ouvi parte do curso de manhã a pensar que teria de vir a casa ver da porta, de outro portátil e do carro bloqueado, não tomei café-café, perdi o almoço no hotel que era bom, a chave funcionava e percebi que a mulher-a-dias é estúpida que nem uma porta, choveu mais, encharquei-me à procura de outro parquímetro e o grandessíssimo estupor atormentou-me o tempo todo.

eu nestes dias não acho graça nenhuma.)

6 thoughts on “Contraluz

  1. E amanhã (hoje, já) é outro dia e toda a chateza que aconteceu hoje (ontem, já) ficou para trás. Ah, e (parece) não vai chover. Sorriso, portanto.

    1. lol.
      ok, confesso que foi melhor, embora me tenha pegado com uma colega de curso em defesa dos famigerados funcionários públicos; dizia ela q são todos uns calões, que picam o ponto e vão pró café e q têm mais dias de férias q no privado. quase me iam saindo os mexilhões envinagrados pela boca, ‘ca conversa’ foi à mesa durante o almocinho.

  2. Compreendo bem. Quem não tem os seus “mortos”?!
    É que não têm piada nenhuma… perderam-na algures no retrato de um momento.
    Por que haveríamos de remexer gavetas? Há chaves de valerem mais esquecidas.
    Vai um café-café?

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