Noventa e oito por cento

– Dê-me 1 bilhete para o filme que comece mais tarde da sessão da noite por favor?
– É o das 21h50 na sala 3.
– Ok, pode ser.
– Tem algum cartão para descontos?
– Cartão?
– Sim: ACP, GALP, Circulo de Leitores, MasterCard?
(abro a carteira e mostro tudo)
– Pois, não me parece que tenha nada.
– Quanto é, então?
– €6,50
– Desculpe, como se chama o filme?
Assim, assim.
– Obrigada

Corri pelo centro comercial à procura de uma sanduíche portável e alguma coisa para beber. Comprei uma naquela coisa caríssima que diz que é tudo natural, mais uma garrafa mínima de sumo de laranja-cenoura biológico, num total de €6,75. – Foda-se, como é caro! – Resmunguei enquanto amachucava os invólucros para dentro da mala. Em passada larga e a desejar que o filme tivesse quilos de publicidade a antecede-lo, atendi um telefonema do António para me chatear, ultimamente é tudo para me chatear, que não anda bem, que está a sofrer e dedica-se a moer-me o juízo por tudo e por nada. Digo-lhe que não levo a mal que compreendo tudo, desligo o telemóvel a pensar como raio isto entre nós se andará a sustentar, encasqueto que sou eu que teimosamente alimento uma planta morta e sinto uma picada aguda no estômago. Corro. Entro às escuras. Fila 3, que se lixe. Escorrego pela cadeira, abro o celofane da sanduíche. Abocanho-a com um gole de sumo enquanto dou conta que o Assim, assim é um filme português.

Assim, assim, são histórias urbanas com pessoas por Lisboa – relações, encontros, mentiras, palavras, enganos, rotinas, tentativas, mudanças, viveres juntos-versus-viveres separados, casamento, às vezes sexo, amor?, homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, decepção mas sobretudo do fingimento.
Assim, assim é nocturno, as personagens pairam pelo meu lugar fetiche da noite em Lisboa – Braço de Prata. Que bom gosto. Tem o Ivo Canelas, a Rita Blanco, a Margarida Carpinteiro, o Albano Jerónimo, a Ana Brandão, o Gonçalo Waddington, a Isabel Abreu, a Joana Santos, o Miguel Guilherme, o Nuno Lopes e o Pedro Lacerda, e todos eles vão muito bem, porque ficaram exactamente iguais a nós, dizem o mesmo que nós dizemos, sentem as mesmas confusões e tal como nós, ficam indecisos e deixam andar.

Que bela surpresa tive esta noite. Quem disse que não se deve arriscar?

12 thoughts on “Noventa e oito por cento

  1. estou a ler as tuas palavras, e ao mesmo tempo, tenho a minha mais nova a ver um filme. 2012 parece chamar-se. básicamente é o nosso futuro todo rebentado. merdas a estoirar por todo o lado, o chão e fugir nos dos pés. literalmente. e de repente concentrei me no teu filme :)
    duas coisas. o teu #foda-se cheio de razão por causa do preço das coisas. assim de repente gastaste 13€ pra ir ao cinema? são quase 3contos. lembrei me de que eu cheguei a ganhar um ordenado de 30 ou 40 contos. realmente, há aqui um desfasamento. digo eu…
    depois os actores do assim, assim. todos excelentes. vi uma entrevista com o Miguel Guilherme. não há muito tempo. sempre o associei à boa disposição, ao humor, ao gajo porreiro que está sempre bem disposto.
    a gente não sabe nada dos outros pá… nessa entrevista, fiquei a saber, que perdeu a mulher. estava a ensaiar uma peça e chamaram no para atender o telefone. era a notícia…
    nesse dia ou no seguinte, não posso já precisar, era a estreia da peça. não podia faltar dizia o Miguel. se eu faltasse como é que os meus colegas íam fazer? todo o trabalho etc… ía… olha.. como neste filme 2012. tudo por água abaixo.
    tambem amo a Carpinteiro e a Rita.. catano… há quanto tempo não vou ao cinema…

    obrigado por partilhares isto. gostei muito.

    paulo

    1. olha, é a vida!
      ‘inda’ agora vou dar os pêsames a mais uma viúva do meu prédio, já tantas, e depois levo o meu carrinho de rodas, à antiga, a fazer barulho pelo empedrado e vou às compras.
      é a vida.

          1. :-)
            e por entre os mesmos sonhos temos as mesmas ilusões, e subindo às mesmas estrelas caímos nos mesmos alçapões, e aprendendo do mesmo jeito tropeçamos nos mesmos percalços, e rimos e choramos das mesmas coisas…
            Somos felizmente todos diferentes, mas tão iguais! :-)
            Beijo, amiga!

  2. Realmente há coisas que hoje em dia são quase proibitivas, se pegarmos numa familia média (4 pessoas) fica uma ida ao cinema por 50 e tal euros. É caso para dizer Fod*** mesmo! Um luxo no meu tempo era pegar na famelga e ir a uma marisqueira, hoje em dia é ir a uma simples sessão de cinema e comer comida de plastico! Duplo Fod***, alguém tem o numero do cientista maluco do Back to the Future???

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