TABU

Sim, fui ver o TABU. Prós lados da Av. de Roma ao King, igualmente a zona onde vive a Pilar, a Santa e a Aurora, e foi também ao King que, a Pilar e o eterno apaixonado pintor foram ao cinema num 31 de Dezembro qualquer de noite chuvosa e solitária.
TABU é grandioso e belo como um imenso campo de algodão africano em flor, paisagem recorrente no filme que nos lembra a riqueza infinita que foi nossa e nos expõe com firmeza à deplorável pobreza corrente. Se O Meu Querido Mês de Agosto, me trouxe de volta à terra da minha Mãe, a minha terra adoptiva, a minha Quinta, a minha infância, à procissão de São Paio de Gramaços, aos INOX que tocavam nas Festas do Bombeiros onde dancei o meu primeiro slow, TABU levou-me à África do meu Pai, ao seu abalar forçado de Coimbra depois do 1º ano de Medicina completo com o aviso paternal de que não havia dinheiro para continuar e não fez a coisa por menos, meteu-se num barco em Lisboa com quase nada no bolso e partiu para Angola no ano de 1954. Dez anos depois eu nasci.
É precisamente entre 50 e 60 que se passa a 2ª parte da história de TABU, em Moçambique, a vida de fazenda no interior, na savana, um rancho de criados pretos para servir, os poucos brancos existentes conheciam-se todos, faziam caçadas, patuscadas, divertiam-se como em família. Aurora conheceu Gianluca assim, num grupo dos que viviam perto naquele mar de distâncias e porque o crocodilo teimava em se passear pela casa dele. O meu Pai fez-se caçador de impalas e pacaças, às vezes também traziam javalis ou uma girafa. Vestia calções e camisa caqui de explorador e usava o típico chapéu de caçador africano, nas fotografias está sempre de mãos nos quadris a sorrir junto das peças de caça mortas. Há sempre pretos magros e esfarrapados que sorriem às máquinas fotográficas com catanas na mão que serviam para desbravar o terreno na savana e fazer o trabalho pesado. Aurora era uma caçadora exímia mas engravidou do marido e um dia falhou um tiro que se tornou em mau presságio para o resto da vida que tinha de viver. Aurora e Gianluca, tornaram-se amantes. Por todo o filme ser narrado, pois é assim que se conta uma história, o amor deles faz-nos chorar e as cartas trocadas, narrativas antigas, são enternecedoras. O meu pai deve ter conhecido algumas mulheres em África colonial sem guerra, não sabia ainda da minha mãe, era solteiro, jovem, moreno, tem muitas fotografias sentado num murete do alpendre de uma casa, vestido de calças e camisa brancas e de copo de gin com água tónica, gelo e limão, na mão. São fotografias de festa, onde também estão raparigas de vestidinhos cintados, claros, e lábios carregados de baton. São retratos a preto e branco tal como o filme, o Miguel Gomes deve ter visto as fotografias do meu Pai.

Adorei o filme, a história, a música, a mestria dos pormenores, embora comece a achar demasiadas coincidências nas recordações e no imaginário do Miguel. Parece que pisou o meu chão.
Nunca fui a África mas esta noite estive lá.

(mais)

4 thoughts on “TABU

  1. nunca estive em África, embora tenha uma relação de fascínio e/ou encanto com este continente. parece que já lá estive.. fico com a sensação de que não iria estranhar nada se um dia lá for. <– isto deve ser claramente, uma ideia errada.

    deixo te este vid aqui. simplesmente porque sim. estava a ouvir isto agora. fala de slows, de special persons, de esperar…
    e claro, este gajo, na voz e no ritmo, se não tem ascendencia africana parece :P

    obrigado Luisa

    paulo

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