Strangers in the night

Levo os serões a fazer contas, a rever actas, a corrigir os estatutos do condomínio, a rever a legislação da porteira, a refazer orçamentos, a definir novas regras de pagamento, a automatizar procedimentos, a falar com o meu sócio e a beber chá. Voltei a fazer xixi a meio da noite como quando estava grávida por tanto chá que bebo. Tornei a dormir mal como quando tinha a vida com pesadelos e traições porque revejo tudo o que discuti no serão e prevejo tudo o que ainda falta tratar. No dia seguinte trato de seguros, bancos, contas, cheques e numerários e atraso o resto da minha vida que se arrasta por um ror de horas a mais e me leva a retardar o início do próximo serão. E assim tem sido, enquanto o prédio dorme no sossego das noites de Benfica, duas formigas trabalhadoras esgravatam nos papeis a História desta casa, que foi construída no ano da graça de 1973 e tem um mundo de vidas para contar. E gente maluca que aqui vive?! E romances secretos?! E a velha alcoólica do 1º andar?! E o veterano treinador de futebol do 3º mais a sua excêntrica mulher?! E a Dona Maria do Céu que é uma víbora e já foi freira?! E a condessa do 9º que chama a criada interna que ainda mantém para lhe vir cá abaixo buscar um saco da Zara?! E o Drº do 4º que ia todo o caminho até à paragem do autocarro a empurrar uma carica com o pé?! E o engenheiro do 6º surdo como uma porta que nada percebe e nos faz repetir as coisas até à exaustão?! E os manos Matias do 7º completamente xonés?! E a senhora do 5º que tem Alzheimer e me diz pela janela que todos os dias vê discos voadores?! E o juiz do 8º que não abria a porta ao filho toxicodependente e que acabou por morrer?!
Mas é tudo boa gente, dizemos nós animados com o frágil equilíbrio dos débitos e dos créditos, embalados pela noite, num torpor de sonos atrasados de ontem para amanhã. O silencio de um prédio de velhos adormecidos dá-me uma responsabilidade de enfermeira de uma unidade de cuidados continuados.

Tirem-me deste filme, pleaaaase….

4 thoughts on “Strangers in the night

  1. postei agora no twitter. eu adoro King Crimson. relaxa-me. oxalá gostes. oxalá te faça bem.

    como sempre. adorei ler isto, de ti. escrito por ti. falta me um dado… cidreira? :)
    não é só isso. leio nas tuas entrelinhas outras coisas..

    eu comprei um andar, no tempo em que se podiam comprar casas que isto agora não sei como se ganha pra pagar estas prestações [não tenho jeitos de cardonas nem catrogas é o que é], num prédio de 3 apartamentos. enfim, não tenho nada que me queixar. já estou no fim do empréstimo.
    somos 3 na reunião de condomínio. tivemos uma sorte incrivel ! as nossas reunioes de condomínio, eram uns uns bifes altos do lombo e uns molhos de grelos cozidos. a dividir por todos. cada ano jantavamos na casa de cada um. era uma coisa única. eu sempre ouvi falar em problemas, mas aqui não. as nossa reunioes eram o máximo :)
    as actas fazia-as eu sempre. eram iguais. aprovar o orçamento e nomear o admin do ano que entra :) done. eu pagava tudo do meu bolso, e descontava no fim do ano na renda etc.
    eram acordos de aperto de mão. eram compromissos assim. de palavra. como ainda hoje faço. às vezes quilho-me. mas faço questão disso. acredito nas pessoas. até me falharem, é tudo gente honesta. é assim que sou.

    tudo mudou. uma das casas foi vendida a uns “cranianos” gente que tenta ser decente. no fundo eu sei que tentam. mas não conseguem. têm um atraso educacional em relação a nós que chega a causar-me pena de tão grande que é esse fosso.
    eu, que sou altamente crítico em relação à educação das pessoas em Portugal, continua-se a cuspir pró chão, a atirar beatas pela janela do carro, a ser mal criados ao volante, nas filas do supermercado etc etc, quando comparado com este tipo de gente, quer dizer… não há comparação. estamos muito à frente. mas devo realmente ter tido azar. espero que não sejam todos assim. não são. não podem ser.

    é um ano com uma carga a mais. mais o IMI que se chega a altura. outra vez. hão de rebentar com as pessoas de tanta canga que nos metem ao cachaço.

    sorte Luisa

    obrigado

    paulo

    1. o que eu me rio contigo, pá! tu é q as contas das boas!
      sabes que estes serões apesar de serem extenuantes estão a dar-me um gozo bestial. pelas actas antigas, ainda escritas com letra doutros tempos com caneta de tinta permanente, tenho sabido de coisas interessantíssimas que se passaram no prédio nas vidas daquela gente que conheço apenas há 10 anos. a História é uma coisa fascinante, quanto mais se lê mais se quer saber. um prédio de gente velha, que já foi nova e que tinha a força e resistência que eu, menos velha, ainda demonstro ter. de noite, o silencio de um prédio de velhos adormecidos, dá-me uma responsabilidade de enfermeira de cuidados continuados…

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