Metesi-o

Tenho agora neste sítio novo onde trabalho um senhor muito bem-apessoado, que ronda os seus 52, 53 anos, muito alto, porte digno, ventre liso, bigodinho bem tratado ligeiramente retorcido nas pontas, sempre vestidinho de gravatinha clara – um pink discreto, um verde escuro sportinguista, camisa baratucha mas bem engomada, calcinha de fazenda vincada a preceito pela mão de uma mulher, e um blazer a condizer com a calça, ou axadrezado, ou de riscado fininho. Quando chega ao escritório despe o cheviote e veste um coletinho de malha amarelo pintainho que, impecável, tem penduradinho num cabide suspenso no bengaleiro da sala. É um verdadeiro manga-de-alpaca com funções condizentes aliás, mas de porte altivo e respeitoso.

Ontem, já fim de dia, vinda eu de uma reunião tardia, entrei na sala discretamente que pelo adiantado da hora se encontrava vazia, ou melhor, pareceu-me vazia, e é quando começo a ouvir uma conversa telefónica melosa, de voz maviosa, grave, sedutora até, que percebi ser do meu amigo administrativo-queirosiano. Era fofinha para aqui, queridinha para acolá, risadas malandras e mais, ai querida o que eu te fazia, ó amor eu sei do que tu gostas e de repente, sai-lhe um metesi-o onde quiseres. Estupefacta, dei uma gargalhada monumental, incontida, desbocada, com uma vontadinha imensa de lhe rogar que continuasse o engate telefónico para bem dos meus neurónios auditivos que se deliciavam com tanta melice-peganhento-porcalhota, mas zás, o tipo deu por mim. Num ímpeto desligou o telefone, pôs-se de pé e chegou-se-me vermelhusco, untado de suor, de olhos esbugalhados efervescentes a exclamar: – Ai estava aí?!!? – Peço-lhe desculpa, é que eu de vez em quando digo asneiras!
Garanti-lhe que nada tinha ouvido, que toda a gente diz asneiras, que eu própria digo algumas, (mal sabe ele desta minha calamitosa língua) e que sobretudo, não precisava corar.

Lá se foi o preceito do homem, o apuro na gravata, a modéstia do colete de malha no trabalho, o esmero do bigode, a postura de Senhor, o respeitoso empregado administrativo.
Quando entrou hoje na sala rosnou-me um bom dia envergonhado. Coitado, que pena tive dele, ao menos será que a outra gostou?

2 thoughts on “Metesi-o

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