Telenovela

Episódio I

Estou feliz no meu novo trabalho.

Episódio II

Acordei com a Susana Metzei uma redução do horário de trabalho. Chamei-a cá a casa, sentámo-nos à mesa da sala de jantar para as conversações. Enrola as mãos frágeis uma na outra, é tique, um nervoso de imigrante. Conta-me a vida, que isto não está fácil. Saíram da Roménia sem nada há 10 anos atrás, o marido saudável e com formação superior empregou-se nas obras com relativa facilidade. Havia trabalho e rapidamente começou a ganhar bem, alugaram uma casa, compraram um jeep em segunda mão e a vida parecia sorrir. Um dia Vladimir teve um acidente na obra, caiu do alto de um andaime para cima de umas placas cortantes e perdeu a perna direita. Teve de deixar de trabalhar, foi hospitalizado para recompor o coto e arribar porque perdeu muito sangue. O seguro pagou-lhe as despesas de hospital e garantiu-lhe uma prótese. Só que a prótese que o seguro pagou era quase uma perna de pau que lhe provocava dores acutilantes e teve de a abandonar. Ficou dias e dias entre a cama e o sofá. O dinheiro esgotou-se, Susana que trabalhava a dias, encontrou coragem para pedir uma quantia emprestada à patroa, para mandarem fazer uma prótese metálica e bem ajustada à anca para o homem poder voltar a andar. Seguiu-se a fisioterapia e o caríssimo material ortopédico, esgotaram toda e qualquer reserva de recursos, largaram a casa e prestes a ficar na rua apareceu a oportunidade do lugar de porteira cá no prédio. Foi uma sorte muito grande, explica-me entre torções de mãos e um português quase correcto.

Só consegui ouvi-la de cotovelo fincado na mesa, a mão em concha a tapar-me a boca enquanto mordiscava com força as costas do indicador.
Isto é que são vidas, caramba!
Isto é que sofrer, caraças!

Eu e o meu vizinho engenheiro civil, assumimos a administração do prédio – responsabilizo-me pelas contas e porteira e ele pelas obras e manutenção.
Vamos ter um longo e penoso ano de administração pela frente, dificultado pela crise que já se faz assustadoramente sentir na classe média do condomínio.
Mas é tudo boa gente e haverá muito chá quente para aguentar os longos serões que me esperam.

Episódio III

Vi a reportagem, “Passaporte para o engano” da TVI assinada pela Alexandra Borges, trata o tema emigrantes, os nossos, os que vão lá para fora perder as pernas e a vida.
Para já fica a apresentação da reportagem e assim que estiver vídeo disponível na Net, para aqui virá. Ou muito me engano ou esta reportagem irá ser premiada.

Episódio IV

“Que merda de país é este?”, pergunta-se por aí e eu estou exactamente com a mesma interrogação.

Episódio V

A Anabela morreu na passada Sexta-feira e foi a enterrar no Domingo.

Episódio VI

O neto mais velho do António, o tal, o neto eleito, droga-se. É mesmo verdade.

5 thoughts on “Telenovela

  1. faltam me as palavras. queria só ter clicado nesse botão em cima a dizer “gosto”. não tenho conta aqui.

    a tendncia é piorar. gostava de dizer outra coisa. mas não posso. não seria verdadeiro comigo. a caridadezinha, estupidamente imposta por este “governo?” tem pela base precisamente isto. esvaziar as pessoas de dignidade. por várias razões. não vou dizer quais. são mais ou menos evidentes não é? para mim são.

    tomai o exemplo das pessoas que morreram “com gripe” ou fechadas em casa.
    (aqui há tempos bastava morrer 1 ou 2 para dizer que o governo não faz nada, agora morrem 3000, sim, 3 MIL numa semana e mal se sabe do facto)
    basta entender que um velho, com uma reforma miserável, adia ao máximo o simples ligar do aquecedor eléctrico. a conta da luz dispara. portanto passam frio.
    uma ida ao médico dum hospital então, hoje em dia, é uma coisa absurda em impostos. sim, impostos. já não são taxas e muito menos moderadoras. não moderam a ponta dum corno.
    portanto, os velhos, com uma vulnerabilidade maior, tanto em condições fisicas como económicas, vão deixar arrastar a gripe até não poderem mais. morrem.

    ainda não fiz as contas mas deve estar quase ao mesmo preço ir ao hospital tratar uma gripe ou uma infecção nos pulmões ou fazer um seguro na putisse da médis.

    se isto é válido para os autocarros de pobres, novos pobres que não param de aumentar, imaginem para pessoas que para aqui vieram à procura de trabalho e de uma vida digna.
    o sofrimento deve ser o mesmo. não se deve comparar. a fome é fome. ver um filho a sofrer é ver um filho a sofrer. que me interessa a nacionalidade? nada!

    imagino a velhice da cardona. ou da cristas. tento imaginar. não consigo. mas não consigo mesmo. esta comissão liquidatária em que esta merda deste povo votou por comer veneno contra o sócrates todos os dias, é este serviço que está a fazer. 35% dos jovens não tem onde ir trabalhar! dizem hes que se mexam e vão à vida lá para fora. cambada da cabrões, que não percebe que um modelo social se faz com emprego, e novos a pagar impostos para que os velhos tenham cuidados dignos!

    que merda de gente é esta? eu já não vejo tv à meses! de vez em quando deixam aqui a tv ligada e vi o gaspar a falar da avó, não sei bem o quê, não consigo ouvir o indivíduo em si.

    deve ser uma avó bem tratada espero. como a avó do relvas e dos restantes idiotas e ignorantes em quem pessoas votaram. credo. isto vai dar merda. só pode dar merda. tem tudo pra dar merda. o exemplo vem de cima.

    fiquei sem palavras outra vez. às vezes, como diz o meu amigo Zé Mário, só me apetece…desnascer…

    btw vou deixar aqui um texto, dele, do Zé Mário, pra quem não conheçe é bom que conheça.
    e pra quem já conheçe, é sempre bom ouvir. uma coisa com uma actualidade impressionante não é?
    http://youtu.be/ZUJts90HIHc parte 1
    http://youtu.be/wj7LKI8rIUo parte 2

    não correu muito bem isto hoje. pronto. obrigado

    paulo

    realmente minha amiga Luisa, isso é que são vidas! isso é que é sofrer! e as crianças? sempre as crianças…
    às vezes andamos aqui a queixar-nos do preço do gasoleo, ou dum qualquer problema, e afinal, nós não temos nenhum problema. porra!

    1. sabes que te li outra vez e reparo que exclamaste quase tudo que eu pensei quando escrevi esta telenovela mexicana. Quando me apercebo melhor destas vidas, isto é, quando mergulho nas realidades diferentes da minha, fico com um misto de sofrer, revolta, nojo e gratitude por ser tão maravilhosamente poupada.
      Isto é tudo bastante horrível, é difícil reagir, a mim custa-me muito.

  2. fizeste-me lembrar uma coisa, um reportagem antiga, feita em Israel.
    em determinado momento, falam sobre a reacção das crianças ao verem uma carteira perdida no chão.

    tem tanto de doloroso como de corajoso isto.

    as crianças lá, vêm uma carteira no chão e fogem. vão ter com os Pais ou um Policia.
    aqui, naturalmente apanhavam a carteira.
    porque é uma questão de hábito isto.

    naturalmente a criança israelita que for brincar com qualquer coisa apanhada no chão, morre. porque é uma bomba.

    isto a mim, dói-me. profundamente. vai contra toda a liberdade que sempre tive.
    mas estas crianças têm uma coragem enorme. não ir apanhar uma carteira que pode ter uma notita para irem gastar em qq coisa.

    estamos a ser alvo de terrorismo. Portugal está a ser alvo de terrorismo.
    e vamos ter que aprender a lidar com isto. sob pena de um dia, repararmos numa carteira perdida, irmos fazer a boa acção de a entregar, e perdermos. a vida. ou pior.
    a liberdade.

    paulo

    não estás só minha cara. a mim tambem me custa imenso assistir e reagir. muito mesmo.

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