Carnaval

Não aprecio muito o Carnaval, estou como a minha filha que muito pequenina dizia: – mamã, não gosto de palhaços nem mascarados, reconheço no entanto que é uma manifestação do mais humano e humanizada que existe, fazendo coexistir uma série de comportamentos básicos, que de alguma maneira ou em dada ocasião precisavam ser extravasados: o profano, a prece, a fantasia, o terreno e o erótico.
Quando há uns 3 anos, quando me era natural sair pelo Carnaval, dar um giro por onde calhasse, fui parar à Galiza e com a minha habilidade natural de me meter em caminhos absolutamente desconhecidos que nem no mapa oficial aparecem, dei com a povoação de Laza, tive uma das mais fantásticas experiências com o Carnaval.
Andavam pela pequena aldeia numa correria desenfreada, grupos de homens mascarados de xaile, calções tufados, meias de renda, ligas nas pernas, mascara de madeira no rosto, chapéu alto com uma pintura de animal pela frente e forrado por trás com pele desse mesmo animal, um cinto de pesados chocalhos e chicote na mão, com que batiam em todas as pessoas. Eram simplesmente assustadores na sua figura e no poder que exerciam sobre o povo assistente, mas ao mesmo tempo de um colorido fantástico que nos deixava hipnotizados, presas fáceis para os chicotes certeiros. São chamados, Peliqueiros de Laza. Vim a saber que, os grupos de Peliqueiros desde sempre animam as ruas e praças com a sua artesanal e cuidada indumentária que soma elementos e rituais antigos, medievais, barrocos, cobertos com uma máscara feita de madeira, coroada pelo semi-círculo com algum símbolo totémico, respeitam um ancestral programa ritual. Com as suas correrias, saltos e bramidos fazem tocar em uníssono os chocalhos, fustigando com o chicote quem interferir no seu caminho

Parecidos com eles, são os nossos Caretos de Trás-os-Montes, também de chocarreira à cintura e o mesmo ar desafiador com a população. Descobri este interessantíssimo Blog, de um amante de Trás-os-Montes, com uma colecção de curiosas tradições daquela região e muitas fotografias, eis o Ferrado de Cabrões

E qual não é o meu espanto, quando hoje ao falar de Laza com um colega de trabalho, casado com uma alemã da Bavária, me conta que, ao ter dado uma volta por Portugal com a mulher e ao terem tido oportunidade de ver o Carnaval transmontano com os seus Caretos, a alemã exclamou que aquilo era exactamente igual ao que se passava na Alemanha. E sendo assim, foram por certo os malvados dos Vândalos quando por cá andaram, que trouxeram para a Península hábitos de entrudos tão sinistros mas com tanta magia.
E é por coisas destas que somos Europa e há razões para podermos viver em conjunto.

Ficam as fotos e a vontade de lá voltar.

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