Domingo

O dia surge pesado de fatalidade,
Encosto a cara às vidraças da janela aprisionado em temores violentos:
Cinzenta como as nuvens sufocantes
A manhã traz-nos viúvas de negro a caminho da missa.
Sinto que algo me abandona, uma velha pele, um sonho do passado…
Como dizer esta tristeza?
Florestas sem música?

Bebo o café da manhã no silêncio da penumbra,
O Domingo deslizando como lágrima de saudade.

(no Estilhaços e Cesariny, de Adolfo Lúxuria Canibal)

[ofereci o Estilhaços e Cesariny, encontrei-o por acaso na livraria, é suave ao toque, desfolha-se bem, li-o todo e ouvi-o todo antes de o dar. fiquei fascinada com os dois, com o Cesariny e com o Adolfo. o Cesariny diz o que quer sem rodeios, seco, directo, amargo. o Luxúria é muito engraçado, há nele todo um desencanto com o qual pactuo. atira as palavras sem cerimónias e salamaleques, sem se estar a preocupar se o ouvem ou lêem, que é a pior coisa que um gajo ou uma gaja que escrevem podem fazer. há uma gente nos jornais que escreve o conveniente e o que os amigos querem ou o que a tendência política do pasquim exige, o mais grave, é haver gente nos blogs, (sou purista com os blogs, democratizaram a escrita mas não abusem), que se julga um Hemingway em erudição e com capacidades acima da média na impulsão de ideias e escrevem que se desunham, propositadamente, para um público imaginado de seguidores que mendigam aquelas palavras milagrosas, pensam eles, e depois referem-se aos leitores chamando-os de, ‘meus amigos’, aquilo parte-me toda. Solitários e tudo não passa de uma treta. mas que se lixem, quero lá saber, sejam felizes, não valem dez reis de mel coado, é o que é.

Ao Domingo, gosto de ir ao pão à Padaria Portuguesa, é cara como o fogo mas é um prazer e eu sou coleccionadora de prazeres. A geometria dos mosaicos do chão distrai-me enquanto amacio o café quente no palato e trinco o pãozinho de centeio com manteiga. Pedi com pouca manteiga. Os azulejos do chão da casa de banho da minha avó, eram de quadrados pequenos a fazer xadrez, um amarelo torrado e outro cor de vinho, portanto, o chão da padaria vai à minha memória buscar o chão da casa grande da Beira Alta da minha infância, que desapareceu. A esta hora já substituíram todo o ‘quarto-de-banho’, modernizaram-no, embutiram o lavatório num armário cheio de arrumação, tiraram-lhe os toalheiros de Cerâmica da Valadares que guinchavam ao rolar quando se puxava a toalha. Os ladrilhos da cozinha faziam o mesmo jogo de cores mas numa esquadria maior, talvez 25×25. Eu às vezes só andava nos amarelos e outros dias só pelos cor-de-vinho. Dava saltinhos despreocupados e estorvava o mulherio que por lá andava ou com um braçado de grelos para lavar ou com o alguidar de alumínio com a galinha acabada de matar e o sangue quente no pucarinho de barro.

O Domingo à tarde, assim pelas 6 horas, cria-me uma angústia, um arrepio, uma tristeza, e caramba tantos anos passaram. Durante 7 anos vi a farda castanha lavada e passada a ferro em cima da cama. Vestia-me depois do jantar – as meias de nylon barato cor de pele, a saia castanha com um macho atrás e outro à frente, a camisa beije de gola redonda, que me fazia o rosto macilento, e um blaser castanho da cor da saia, direito, sem trejeitos cintados para não se suspeitar o corpo juvenil. Emblema na lapela. Jantava-se sempre cedo lá em casa, ao Domingo, para eu poder entrar no colégio a horas. E entrava. Quando chegava desfardava-me e vestia o pijama.

Ao Domingo já se sabe que começa tudo outra vez. É isso que me arrelia, não se contraria a monotonia dos velhos hábitos do Domingo e o gáudio que tem em ser a própria da Segunda-feira que lhe sucede.

Mas voltando aos Estilhaços, fiquei presa em quase tudo e é ainda das poucas coisas que me dá alegria esta descoberta da poesia, textos intimistas de tanta ou mais pureza quando não são escritos a pensar na leitura dos outros e cada um de nós o interpreta a seu jeito, conforme lhe agrada e é capaz, se quer tristeza entende-o de palavras pesadas e o onanista consegue tirar prazer dos advérbios.]

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia,
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera,
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência,
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem.

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