Susana

Fiquei de a avisar da reunião e hoje toquei-lhe à campainha de manhãzinha cedo. Abriu imediatamente, parecia estar numa espera eminente da minha pessoa. Da porta aberta vejo o quarto e a cozinha, uma nesga e tenho a visão completa da casa. É pálida, a casa. Há uma alcatifa amarela suja a forrar o chão e depois umas paredes cinzentas pardas escurecidas pelo tempo.
Tem uma cara triste, ela, muito séria, muito direita, militarizada, cabelo escuro apanhado atrás, ligeiramente baixa, magra, sapatinhos de atanado confortáveis, as mãos enroladas uma na outra. Dei-lhe os bons dias, disse-lhe que eu e os vizinhos queríamos todos conversar com ela, se podia ser na quinta-feira, pela noitinha. Reparei nos olhos muito abertos castanho claros, rodeados de uma tonalidade escura, olheirenta, mas os olhos lindos, toldaram-se no entanto com o brilho das lágrimas que a assaltaram. Reparei no brilho aquoso, doeu-me, disse-me que já tinha ouvido qualquer coisa, que só estava à espera de ordens para sair. Fiquei perplexa, senti-me uma Nazi à soleira da porta da casita de porteira que habita a pedir-lhe a identidade e ela de malas prontas com os haveres reunidos à espera da fatalidade. Hirta, disciplinada, romena, os olhos castanhos dourados mais tristes do que sempre são, mas que bonitos, expliquei-lhe que não era bem assim, que tinha percebido mal, que nos íamos sentar para conversar para arranjar uma solução que nos ajudasse a todos, que o prédio estava mal de contas, a empresa que nos administrava o dinheiro meteu-lhe a mão, muitas despesas, agora os elevadores avariados, que a vida está má para os condóminos, mas que não a pomos na rua, que não a vamos tratar mal, que queremos que nos ajude a encontrar uma solução. Recuperou alguma secura no olhar, agradeceu-me muito o querermos falar com ela, que não esperava tamanha consideração, uma imigrante, que na Roménia se passa fome e aqui não, que gosta de ali estar.
Chama-se Susana. Há palavras iguaizinhas do romeno para o português, confortável é confortabil, a raiz latina tomou derivações por vezes muito parecidas com as nossas, até o som da língua o acho semelhante. Tenho amigos romenos, recebi dois professores universitários da comunidade Taizé na minha casa, dormiram na sala, partilharam a nossa casa de banho e tomavam chá connosco. Regressaram à Roménia de autocarro depois de 5 dias de viagem, escrevemo-nos, fizeram um filho, o Alexander, ganham miseravelmente na universidade e partilham uma casa com outras famílias.
Estou apreensiva com a negociação que vou liderar, tenho de rever as contas do prédio em baixa, diminuir as despesas e rentabilizar a casa de porteira. Não posso abandonar a Dona Susana e o Sr. Constantin à sorte, com a pouca sorte que têm iriam por certo tirar-lhes a autorização de residência e recambiavam-nos para a Roménia.

A minha filha arranjou um namorado. É assumido. Coisa séria de paixão. Um colega universitário. Tal qual eu com o pai que foi dela. Acho-lhe graça, os gestos e hábitos parecidos aos meus, noutro tempo, noutro lugar, e ainda me lembrar deles tão perfeitamente. À noite, as duas pela cozinha a arrumar os tarecos, reparei que ficamos iguais nos trejeitos de rosto enquanto ambas desembaraçadas escrevemos sms’s, aos namorados.

4 thoughts on “Susana

Diga-me...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s