Sopa de feijão

Brinquei com a tampa azul da garrafa de plástico à mesa do jantar, entretive os dedos esguios com exercícios de equilíbrio, revirei-a em ondulações, saltitei-a na mão, descansei-a sobre a toalha de algodão verde com desenhos vermelhos de maçãs pressionando-a com o dedo indicador, peguei nela outra vez e recomecei a brincadeira. Olhei o infinito no quadrado pequeno da minha cozinha, pensei em como chorariam os meninos da Grécia quando os seus pais os entregavam aos lares de acolhimento por não os conseguirem sustentar, questionei-me como os levariam até lá – talvez à noite embrulhadinhos numa manta para não darem conta de nada, ou de dia como se fossem para a escola e no final ninguém os fosse buscar. Como chorarão os meninos gregos moreninhos como os nossos? Arranhei-me nos filamentos soltos da tampa azul enquanto a engalfinhava por entre dedos e pensei nos pais dos meninos gregos a fecharem os quartos e as casas que já não podem pagar, a encherem uns sacos com haveres e saírem porta fora, já sem os filhos pela mão, na liberdade do inferno da rua, amarrados na pobreza que ganharam num concurso de televisão.
Irritei-me com a tampa. Dei-lhe um empurrão com os dedos firmados em mola como se atira um berlinde, chocou contra a base de um copo, fez ricochete e enfiou-se debaixo da borda do prato de sopa de feijão. Fechei os olhos e entrei no cinema com o filme a começar, havia uma família espanhola que alugava uma parte de casa com serventia de cozinha e quarto de banho. Já tiveram uma, compraram-na num tempo próximo deste, quando lhes disseram que podiam ter um lar e se convenceram que podiam ser assim, felizes, mas agora já não têm porque não a conseguiam pagar. Levantei-me da mesa, entrei na casa de banho anexa ao meu quarto e sentei-me na retrete. Reparei que os frasquinhos de maquillage estavam desarrumados em cima da pedra que encastra o lavatório, a escova do cabelo com restos do penteado da manhã, os champôs de tampa aberta e o creme do corpo caído. Lembrei-me dos que partilham casas de banho, que levam tudo num saquinho de pano para ir e vir dela até ao quarto. Preocupam-se em não deixar suja a sanita, limpar os cabelos do ralo da banheira, deixar a borracha pendurada, a ordem da cerimónia do estarmos com alguém. Puxei a descarga do autoclismo sem ter feito nada, ajeitei uma toalha de rosto no toalheiro, voltei à cozinha e a tampa azul enfastiada olhou para mim. Deitei-a fora de supetão. Descasquei uma tangerina sumarenta e meti-a à boca com vontade. Lembrei-me das famílias portuguesas onde já não se janta porque não há, não se pode. Os garotos almoçam na escola que o apoio social dá uma mão, e à noite lá se arranja um Nestum, uma Cerellac, um bocadinho de pão. Faz-se um esforço por cozinhar o nada na panela com uns fios de esparguete. Lambi o mel da tangerina da mão.

Distraí-me das conversas da mesa, envolvi-me despedaçada no silêncio das mágoas dos outros – no saco com o peluche mais querido daquele menino que a mãe lhe arranjou para levar, nos dois jogos de lençóis de cama trazidos para as mudas de roupa no quarto alugado, nas riscas de massa a boiar no tacho de alumínio no apartamento novinho de Mem-Martins.
Cortei a casca de tangerina em tirinhas finas com uma faca de serrilha afiada. A precisão da faca na casca mole desenhou lindos pauzinhos cor de laranja no prato de sopa comida.
E amanhã como será?

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2 thoughts on “Sopa de feijão

  1. como alguem escreveu ontem, eu leio estes teus escritos Luisa. entram pelo meu email e logo venho aqui. às vezes tenho vontade de escrever qualquer coisa e não o faço. outras vezes, escrevo, e depois apago. outras ainda, espero que seja o caso hoje, vou deixar aqui uma palavra. um palavra para sentires que não carregas essa dor dos outros sózinha. tenho uma sobrinha a viver em Barcelona. fez formaçao profissional aqui em cozinha. quer ser chef um dia. então trabalha quando e onde há trabalho. e mudou agora para outra casa. uma parte de uma casa. e cá estamos nós. a grande Espanha, que há 1 mÊs ou 2, diziam meia duzia de fascistas que tenho na minha timeline, a Espanha? nunca cairá! é grande demais para ser salva. pois. e quem vai salvar quem não pode pagar a casa e tem de largar os filhos… só essa ideia de largar os filhos, é destrutiva. de uma violência que não consigo medir. quem salvará essa meia duzia que andou a gamar anos e anos a fio, para que as coisas, inevitavelmente desembocassem aqui? quem os salvará do inferno onde vão cair?
    o teu texto é muito lindo. obrigado.

    paulo

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