Bifana

Se há coisa que me sabe bem é sair da minha horta, depois de um dia de jornada, que começa às 10 h da manhã e termina às 5 h da tarde, e enfiar-me na Academia Musical 1º de Junho de 1893. Suja da cabeça aos pés, de galochas sebentas calçadas, cabelo mal amanhado, mãos de carvoeira a lembrarem-me as do Manel Jacob, mas com uma traça desgraçada, peço ao balcão uma bifana no pão e uma coca-cola. O balcão está sempre cheio de homens que o rodeiam em namoro remansoso como se aquele varandim de metal lhes lembrasse uma mulher a quem numa calma aparente e maliciosa fizessem a corte. Quando surjo e me encosto ao balcão tal qual eles, fazem-me sentir desacomodada, não porque se metam comigo que não metem, mas porque me olham com um desdém manhoso talvez por ter o mesmo sexo das mulheres que porventura têm em casa, digo eu. A forma que têm de me mostrar a sua virilidade é a de poisarem os copos de vinho, que suportam nas mãos, com um impacto violento no balcão forrado a chapa de alumínio onde, discretamente pouso a carteira enquanto espero pela fritura da bifana. Tanto os que entram na Academia como os que já estão a bisar a bebida, vão pedindo tacinhas e cheirinhos. Os alcoólicos nunca pedem um copo de vinho, uma cerveja, ou uma aguardente. Sugerem aos empregados dos vários balcões que frequentam que lhes tragam uma tacinha, uma cervejinha ou um cheirinho. É tudo em inho fazendo-lhes crer que ingerem doses infantis do néctar que amimam com mais vontade do que a um filho.
Mas vale a pena entrar ali pela bifana, raios partam como é boa e eu esfomeada por ter andado vergada horas e horas a semear ervilhas. Tem molhanga num pão caseiro, tenrinho, q’eu devoro sem compostura, rodeada de vapores quentes de tinto e risadas grosseiras, enquanto de olhar parado, esbodegada, observo as mãos dos homens a acariciarem o rebordo do balcão num desvelo de marido fiel.

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6 thoughts on “Bifana

  1. Ó porra, que já me abriu o apetite!!!! Uma bifana…. mmmmm…. mesmo a esta hora, ai não que não marchava, em companhia de uma minezinha. Tenho que passar um destes dias lá pela Academia à cata duma dita, a ver se se acompara com as, para mim, melhores bifanas do mundo (passe o exagero) da roulote da Ponte de Frielas, ali pertinho do IKEA de Frielas (Loures).

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