Forget-Me-Not

– Sabes do que é que eu gosto mais, amor? – disse Lula, quando Sailor, ao volante do Bonneville, saía de Lafayette em direcção a Lake Charles.
– De que é amendoim?
– Que tu me digas coisas bonitas.
Sailor riu-se. – Isso é fácil.

– Sinto-me tão em baixo. É como se alguém me tivesse chupado o sangue todo do corpo.
– Toda a gente se sente assim de vez em quando, querida – disse Sailor entre flexões – Como dizia o meu avô, não há ninguém que tenha o monopólio da tristeza.

– Sabes uma coisa? – disse ela.
– Hum?
– Não sei se gosto assim tanto que me chames amendoim.
Sailor riu. – Porquê?
– Faz-me ficar tão no fim da cadeia alimentar!
Sailor olhou para ela.
– Verdade, Sail. Eu sei que a tua intenção é seres terno, mas tava a pensar que, ao fim e ao cabo, todos podem comer um amendoim, enquanto um amendoim não pode comer nada, nem ninguém. Faz-me parecer tão insignificante, pronto.
– Como queiras, querida – disse ele.

– Estás mal disposta?
– Um bocado. Querido?
– Que é?
– Vem sentar-te ao pé de mim.
Sailor dirigiu-se para a cama e sentou-se.
– Não sei se isto é o lugar certo p’rá gente ficar.
Sailor afagou-lhe a cabeça.
– Não vai ser p’ra sempre amendoim.
Lula fechou os olhos.
– Eu sei, Sailor. Nada é p’ra sempre.

Não é muito fácil escrever-te agora pelo menos não é tão fácil como dantes. A verdade é que o tempo não voa pois não amor?
Saudades da tua,
Lula

Custa-me acabar esta carta. Se parar de escrever tu desapareces. Mas não há mais nada para dizer.
Vaya com Dios mi amor.
Sailor

(Wild at Heart, Barry Gifford – 1990)

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