Perpétuas Ligações Perigosas

Muito obrigada André Veríssimo.

Perdas perpétuas
04 Janeiro 2012 | 00:01 (edição em papel)
André Veríssimo – averissimo@negocios.pt

Os investidores portugueses foram vítimas de vários logros nos últimos anos. O BPP e o BPN foram amplamente falados. Mas pouca gente, além dos prejudicados, prestou atenção ao prejuízo que BCP e BES provocaram aos aforradores.

Entre 2009 e 2010 os dois bancos venderam na sua rede comercial valores mobiliários perpétuos subordinados: títulos de dívida, que para as instituições tinham a vantagem de fortalecer os rácios de capital. Convencidos de que estavam afazer uma aplicação com capital garantido, os incautos investidores foram seduzidos pelos juros elevados que eram pagos no primeiro ano (bem mais altos que nos depósitos) e a expectativa de serem reembolsados ao fim de cinco. Expectativa, porque, como o nome indica, a devolução do dinheiro poderia ser adiada “ad eternum”, enquanto o banco dele necessitasse.

No ano passado, pressionados por diferentes exigências de capital, os bancos propuseram aos clientes que trocassem as obrigações perpétuas por acções. Por cada mil euros investidos, o BCP entregou em Junho 1600 acções, com um preço de emissão equivalente a mil euros. Quase todos os aforradores aceitaram, até porque, caso quisessem levantar o investimento antes do reembolso, também perderiam dinheiro: os títulos perpétuos valiam menos 20% no mercado.

Mas talvez não imaginassem que a emenda seria pior do que o soneto. A queda da cotação do BCP transformou os mil euros em 228. Uma perda superior a 75%.

O BES fez o mesmo em Novembro, numa operação mais sofisticada. Em troca de mil euros em valores perpétuos oferecia 800 em acções e 200 em obrigações de caixa. Também aqui a queda das cotações penaliza os investidores. A componente accionista vale agora cerca de 600 euros. O que dá uma perda total de 20%.

Para recuperarem as poupanças, os clientes do BES têm de esperar que as acções subam 33%. Os do BCP 337% . Muitos, perante a queda do preço das acções, já as terão vendido, tornando perpétuas perdas que nunca imaginaram, quando o gestor de conta lhes propôs a aplicação.

Cegos pela necessidade de reforçar o capital, os bancos sacrificaram a confiança dos clientes. Não dos clientes institucionais, que sabiam ao que iam, nem dos pequenos investidores temerários. Mas daqueles que, vítimas da sua iliteracia financeira, seguiram o conselho que lhes foi dado ao balcão.

A estes, nem os supervisores, CMVM e Banco de Portugal, lhes valeram. O caso merece que se reflicta sobre a real eficácia da legislação na protecção dos consumidores de produtos financeiros.

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