O Avô do dentinho

Ainda conheci o meu bisavô Tiago. Era homem para noventas e tais tinha eu seis ou sete anos. Já estava acamado, sempre vestido com uma camisa de noite branca de estopa e barrete a condizer numa cabeça perfeitinha coberta de um cabelinho fino branco lavadinho. Deitado de corpo magro e esguio numa cama de ferro esmurrada de branco à moda da aldeia, coberto de um lençol amachucado, cobertor de papa e colcha de fustão cru. No dia de Natal, quando visitava os meus avós paternos, escapulia-me dos convivas e subia as escadinhas de pedra que chegavam a sua casa, a porta entreaberta, Maria a empregada cirandava por lá a quem dizia que vinha dar um beijinho ao avô. Soerguia-se na cama mal me via amparado por um cotovelo magrizela, Maria logo à volta dele, a berrar alto: – é a sua bisneta que vem vê-lo! – e era então que em câmara lenta me baixava até ao seu rosto e lhe dava um beijo de raspão na cara mal barbeada de pelos brancos a cheirar a baba de velho e ele se retorcia de pescoço dócil a chegar-se à minha, de pele macia de menina enquanto eu cerrava os olhos de impressão.
– Olhe lá patrão, então não dá uma moeda à sua neta? – e ele a tactear pela cama, debaixo do travesseiro, uma saquita de pano branco de algodão e quando a encontrava em tremores a abria, tirava sempre uma moeda das pretas de 1$00 para me dar. Eu de mão pronta avarenta aberta para a receber e assim que lhe tomava posse, dizia-lhe que tinha que ir andando, tal mistura de medo e arrepios me fazia aquele quarto obscurecido com uma cama de hospital com um velho tonto deitado e a Maria a de mãos postas no regaço, lenço desconchavado atado à cabeça de roupagens cinzentas vigiava a cena como enfermeira atenta de albergue hospitaleiro.
Mesmo antes de o deixar pedia-lhe que me mostrasse o dente e a Maria gritava-lhe: – Abra a boca à sua neta! – Obediente escancarava a boca num sorriso inocente e deixava-me ver a relíquia que lá existia. Um único dente incisivo restava pendurado ao maxilar superior e ele exibia-o como quem mostra um membro fora do normal.
Sempre o chamei avô do dentinho e hoje lembrei-me dele.

Figueiró da Serra, Beira Alta, Gouveia, Portugal

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2 thoughts on “O Avô do dentinho

  1. Este teu post é dos mais extraordinários q tens escrito. Como podes imaginar e porque me conheces, adorei. Como se diria na tua terra… bem hajas.

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