Bom Dia

Há um sujeito cuja função é dar apoio técnico ao edifício onde trabalho. É um homem enorme, tanto em altura como em largura. Não é gordo, é grande, é forte. Tem uma peitaça inchada de rola gigante que se prolonga até ao abdómen, umas pernas altas de coxa grossa marcadas nas calças de ganga de electricista coçadas, os braços são roliços, cobertos de boa musculatura, uns tríceps bem suportados por um deltóide descomunal e um antebraço digno de um vencedor do braço-de-ferro, tal marinheiro experiente jogador de porão de um cargueiro solitário no alto-mar.
Normalmente veste-se de ganga, calças gingonas, blusão e T-Shirt vermelha. Como todo ele o cabelo é grosso, farto, negro azeviche que penteia com ajuda de gel, mas adoro imaginar que é brilhantina, fazendo uma popa bem delineada à Elvis e bordeja o rosto largo de barba hirta bem escanhoada, com duas suíças longas que alargam no fundo como se fossem calças à boca de sino.
Encontro-o normalmente de manhã, acabada de chegar, traz nas mãos ferramentas pesadas que lhe pendem os braços num redondo côncavo desenhando a periferia do seu corpo enorme, enérgico, chave inglesa, alicate, berbequim de aparafusar e desarticular estruturas, é educado, cavalheiro, lisonjeador com uma pinta danada de Don Juan. Abre um sorriso infantil quando me vê, me segura a porta do elevador, me faz passar-lhe à frente, e lá dentro na intimidade do cubículo, diz-me assim:

– Bom Dia! Hoje o dia ainda vai ser melhor que o de ontem.

Que certeza, que assombro, deleito-me com aquele vozeirão seguro, mecânico filósofo, machão rockabilly, cavaleiro de uma Harley-Davidson, e eu que preciso tanto de encontrar o homem que faça comigo a Route 66.

2 thoughts on “Bom Dia

  1. Por vezes almoçamos no mesmo sítio e ao ler este texto pensei… mas querem lá ver que trabalha no mesmo edifício que eu…?

    Mas depois vi com atenção. O ‘macho man’ do meu não tem peito inchado, não senhora, é todo enxuto, ginasticado. E não tem cabelo oleado, não senhora, tem já algumas entradas que conjuga muito bem com uma pêra à D’Artagnan. E não abre a boca, não senhora, limita-se a sorrir, tem um ar tímido.

    Mas uma coisa é certa: quando os colegas não são especialmente engraçados, valham os homens da manutenção!

    1. :-)
      Sinceramente não me entusiasmo com este ‘meu’ electricista, acho-o simplesmente um cromo, um gigante, um Elvis, um homem deslocado no tempo e no espaço, e engraçado naqueles ‘profundos’ cumprimentos matinais.
      Quanto aos meus colegas-homens, de uma maneira geral são todos belhérque. Eu e as minhas colegas-mulheres costumamos dizer que foram escolhidos a dedo.
      Ai, se eles me lêem! (mas pronto, alguns são uns tipos sensacionais)

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