Tele-Escola

A palavra Tele-Escola que usei no post anterior fez-me lembrar, e como é admiravelmente clara essa memória, o chegar a casa vinda da escola primária e assistir pela televisão enquanto almoçava, às aulas da Tele-Escola. Nesse tempo, que se passou antes de 1974, havia imensos garotos para ir à escola e como os estabelecimentos de ensino não abundavam, existia um horário da manhã, das 9h00 às 13h00 e um horário de tarde, das 14h00 às 18h00. Ficava sempre no horário da manhã e andava na belíssima e moderna Escola Primária das Furnas, com salas para meninas e outras distantes para rapazes. Quando chegava a casa depois da escola era recebida por uma mocita que a minha mãe trazia da terra para a ajudar, e que a troco de cama, mesa, roupa lavada e um pequeno ordenado, iniciava a sua vida profissional a servir em Lisboa. Destas criaditas que habitaram lá em casa, lembro-me perfeitamente de três: a Arminda, chamava-lhe Minda, a Teresa, a doida e a Gracinda, que alcunhava de Cinda.
A Minda era muito nossa amiga, era paciente e gostava muito de pegar nos garrafões de vidro empalhados, e levar-nos até Monsanto para os encher com água fresquinha. Tinha o noivo em Moçambique e escrevia muitas cartas de amor que lhe enviava, ainda que o rapaz lhe respondesse pouco o que a deixava tristonha enquanto fazia a lide da casa. Lia-nos sempre o final das cartas, sentada à mesinha da cozinha enquanto nos dava o lanche, um iogurte natural da Ucal e um pãozinho barrado com Planta, era quando lhe mandava beijos saudosos com laivos de desejo que provavelmente ainda não teria experimentado. No final tirava um ovo do frigorífico, batia-o numa tacinha, molhava o dedo indicador na mistura amarela e untava as bordas do aerograma que ficava muito bem coladinho. Eu e a minha irmã, muito sossegadas sentadas nos bancos da cozinha, assistíamos aquele ritual com o recôndito desejo de termos igualmente um namorado em Moçambique a quem mandássemos beijos de amor.
A Teresa, a doida, era completamente destrambelhada, calculo que deva ter posto os nervos em franja à minha mãe, mas nós achávamos-lhe um piadão. Deixava-nos fazer todo o tipo de asneiras e melhor, participava nelas connosco. Recordo perfeitamente que um dia, enquanto a minha mãe fora de casa a dar aulas, enchemos as paredes de um corredor de garatujas, bonecos, caretas, tudo a cores, pintalgado com os lápis de cor Viarco que o avô nos dava no Natal. A Teresa fartou-se de pintar nessa tarde, enquanto nós desenhamos em baixo ela encheu o topo da parede com todas as fantasias de que se lembrou. A parede ficou linda!
A Cinda era bonita. Alta, elegante, cabelo comprido preto, usava botas de cano alto justinhas à perna e deixava-nos experimentar. Tinha o namorado, o Américo, em Angola e fez-nos voltar à mesa da cozinha onde respeitosamente olhávamos a sua escrita. No fim, tirava da mala um tubinho dourado de batom vermelho, pintava os lábios com a ajuda de um pequeno espelho que tinha junto do divã ali mesmo na cozinha e beijava o papel de avião, finíssimo, marcando-o com uma boca escarlate e bem desenhada. A Cinda prometia-nos sempre que, quando o Américo voltasse, iriam comprar um chalé no Estoril e que nos convidaria para lá irmos lanchar.
A Minda foi-se embora para a terra depois do terramoto de 1969, quando apanhou um susto de morte e se meteu dentro da cama com a minha mãe, branca como a cal da parede. Pensou que era o fim do mundo e pediu para voltar para a família que as saudades apertavam e na cidade passavam-se coisas muito estranhas.
A Teresa foi levada pela mão até à casa dos pais. Lisboa podia ser até perigosa para ela, não fosse meter-se com algum rapazola que abusasse de tanta tontearia.
A Cinda abalou com o 25 de Abril, o Américo voltou vivo e inteiro e lá foram fazer a sua revolução.

Quando assistia às aulas da Tele-Escola, gostava especialmente de ouvir o Francês, era musical e por entre garfadas repetia: ‘Salut tout le monde, ça va?

A Tele-Escola (ou Televisão Escolar e Educativa), iniciou-se oficialmente em 23 de Outubro de 1965 na RTP e levou a escola a alguns dos mais recônditos lugares de Portugal.

(Não encontrei quase nada no Youtube, mas aqui estão duas referências:
Tele-escola

A RTP faz parte da sua vida)

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4 thoughts on “Tele-Escola

    1. Sabe o que me caiu mesmo bem, Luis? Esse ‘gostosamente contadas’.
      Ainda bem que passaram para esse lado com sabor. É bom sinal.
      Estas minhas histórias são uma época, um ‘Conta-me como foi’ e claro que seria um gosto voltar a vê-las animadas. :-)

  1. Mudança de look no blogue, muito bonito, muito acolhedor, e mudança de look na fotografia do perfil, agora com muito mais charme – tempo de mudança em grande estilo. Está de parabéns.

    Quanto ao texto, foi um prazer lê-lo. Saborosas recordações e escritas de uma maneira que é como se nos levasse pela mão a conhecer a sua casa de infância com a sua irmã e com ‘as raparigas’ que ajudavam lá em casa. Parabéns pela segunda vez, pois claro.

    1. quando vemos mudanças nas ‘casas dos amigos’, o que vimos logo fazer para a nossa? pois é, imitar e mudar o sofá com a mesinha de canto.
      tinha de ser, aquela chinela no pé descalço só de olhar me fazia frio. agora já ando de meias quentinhas e os castanhos do meu quarto inspiraram-me para fazer a fotografia. quero que este ‘meu mundo’ seja acolhedor para quem chega, ou para quem volta, porque é assim que estou com a vida.

      estas histórias da infância, e tenho tantas, estão-me muito gravadas, talvez porque sempre fui uma deslumbrada com os comportamentos dos outros, uma pasmada com os gestos, os esgares, as expressões, que as outras pessoas fazem, sempre me apanhei a reparar nos outros, não por indiscrição mas porque fico simplesmente encantada. uma tonteira minha.

      Obrigadíssima pelas suas palavras, que amáveis, que simpáticas!

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