Esterilidade nacional

Flutuei as pernas em table top, elevei as ancas, pus os braços e pernas em posição de trapézio e executei o down dog, apertei e distendi a cintura pélvica com contracções femininas, enrolei e desenrolei a coluna com segurança abdominal, coloquei-me em posição de lótus, agradeci com um assentimento de cabeça e como sempre, terminámos a aula de Pilates a bater palmas numa franca partilha de bem-estar e prazer.
Hoje cancelei a minha inscrição no ginásio. De toalha ao pescoço, confessei à professora que o ía fazer. Mas porquê? Por contenção de custos, expliquei. Até a Luísa, exclamou. Sim, lá terá de ser.
Deu-me um papel para preencher, nome, motivo da desistência. Desagrado das instalações? Não, que disparate, está tudo limpo e arranjado. Descontentamento com o método de ensino? Claro que não, gosto de vocês, são profissionais. Mudança de local de trabalho? Antes fosse. Dificuldades financeiras? Hesitei. Outros motivos? Sim. Crise na merda do meu país, escrevi.
Eram 44 € mensais, parecia uma ninharia pelo bem que me fazia, alongava e trabalhava o corpo castigado por demasiadas horas sentado num cubículo de 1 metro quadrado. Mas 44 € multiplicados por 10, são 440 € e por 12, são 528 €. É dinheiro, caramba! É o ordenado mensal de muita família portuguesa, que dali comem, bebem, pagam água, luz e gás, o infantário do garoto e com o resto vão comendo aparas de supermercado.
Sentei-me um bocadinho com as professoras que simpaticamente acorreram à recepção para assistir ao meu abandono. Mas com o perdão à Grécia isto não fica melhor? Expliquei-lhes que não, que até piorava para Portugal, que a nossa banca tinha comprado dívida grega e ficava agora depauperada em milhões, daí a expressão recapitalização da banca, ter começado a surgir. Nesse caso, porque é que não nos perdoam a nossa dívida? Queriam saber. Disse-lhes que poderia ser pior, porque a nossa própria banca tinha também comprado dívida portuguesa e mais endividada ficaria, e quando quiséssemos ir ao multibanco levantar dinheiro a caixa estaria seca. Que o ideal seria que nos permitissem pagar num prazo mais longo para que as medidas de austeridade não fossem tão chocantes e devastadoras para todos. E se começamos todos do zero? Exclamava uma, já atormentada pela realidade negra que lhes traçava para o futuro próximo. Concordei que era uma boa ideia mas precisávamos de nos transformar em cartoons e passar para dentro dos quadradinhos de um papel.
Falamos depois de filhos, das despesas com os miúdos, desde a ama até às propinas universitárias. Todas elas andam na casa dos 30, casadas ou juntas, anuíram-me que queriam muito procriar, ter pelo menos um bebé, mas que não conseguiam, os ordenados são baixos, algumas a recibo verde, que talvez para 2013 a coisa estivesse melhor, pelo que tinham ouvido ao Gaspar.
Tive imensa pena delas, tão jovens, com o corpo pronto para dar à luz e a reservarem-se à secura da esterilidade, sem poderem sentir o júbilo de serem mães e eu, que com 32 anos já tinha dois e por mim teria tido um rancho deles.

O que se está a fazer às mulheres? A impedir-lhes que cumpram a natalidade, função que lhes é absolutamente querida, a proporcionar-lhes todas as condições para virem a ter graves problemas psicológicos e sociais motivados pela abstinência forçada à concepção de um filho e a oferecer-lhes o aparecimento prematuro de cancro da mama e cancro dos ovários! O que se está a fazer às mulheres?
O que se está a fazer aos homens? Porque não conseguem poder cumprir o devaneio de serem chamados, Pais?
O que se está a fazer ao país?

Alguém pensa nisto enquanto fazem as contas à dívida?

Em 2015, Portugal terá a 2ª taxa de natalidade mais baixa a nível mundial: 1,3 filhos por mulher. Atrás de nós, parece que estará a Bósnia e Herzegovina.

Tudo isto é demasiadamente triste para ser verdade.

(ver minuto 53, do telejornal da ainda RTP1)

3 thoughts on “Esterilidade nacional

  1. Grande post, quer na forma, quer no conteúdo, muito elucidadivo do estado de espírito das pessoas e do estado da nação. Parabéns.

    No entanto, custa-me aceitar que tenhamos que deixar sair os nossos jovens para que tenham futuro longe do seu país. Em relação aos meus, ser-me-ia muito doloroso afastar-me deles e mil vezes desejo que isso não aconteça.

    Os tempos estão péssimos, desesperançados e não vejo como é que, no curto prazo, isto pode mudar de trajectória – mas um dia isto vai mudar e temos que estar cá para forçar que isso aconteça.

    Tenha um bom fim-de-semana, Luísa e que os seus filhos tenham força e criatividade para conseguirem construir o seu próprio futuro.

    1. Muitíssimo obrigada pelas suas palavras.
      A ida dos meus filhos para longe vai-me ser extremamente dolorosa, mas sinto que vai acontecer, tanto para garantirem a sua sobrevivência, como pela educação e recursos técnicos com que os estou a apetrechar.
      Mas a vida dá tantas voltas e a minha tem sido uma montanha russa, que o máximo que me atrevo a prever é sobre o que irei fazer amanhã.

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