Corte de cabelo

Maria mora na outra banda. Trabalha ali no cabeleireiro há 4 meses. Teve de sair do outro onde já estava há 13 anos porque a patroa começou a maltratá-la quando a mãe lhe faleceu e a cabeça a começou a trair. Sentou-me na cadeira, pôs-me a toalha turca em redor dos ombros, mais um penteador comprido de nylon cinzento e um suporte de borracha para o fixar. Reparou no livro que eu estava a ler e de onde não desviava o olhar enquanto lhe pedia que me cortasse as pontinhas e lhes desse o ar de sempre desordenado. Perguntou-me sobre o que tratava, que não conhecia o autor. Resolvi dar-lhe atenção, aquela pergunta não me era nada habitual, fechei o livro e passei uma mão carinhosa pela capa. Contei-lhe que o Michael Ondaatje foi igualmente autor de, O Doente Inglês, livro que deu origem a um filme maravilhoso com o mesmo nome que ganhou nove Óscares. Terminou a aparadela ao cabelo, penteou-me como a uma boneca, espalhava-me a ampola desnecessária contra a queda quando lhe comecei a falar sobre o livro que repousava no meu colo. O Fantasma de Anil, expliquei-lhe que ainda estava no princípio, mas que desde já se revelava uma narrativa expectante, vislumbrava um romance tórrido num Sri Lanka longínquo. Disse-lhe que o autor era muito descritivo, que nos fazia andar nos desertos ao lado das personagens, que falava da História dos países e nos dava sempre um amor pouco óbvio entre um homem e uma mulher, mas que era assim que eu gostava. Meteu-me as mãos pelo cabelo adentro, massajava-me com força o couro cabeludo, fechei os olhos pelo prazer que me provocava, e lembrei-me do Almásy, amante dos meus sonhos, a depositar a Katherine na Gruta dos Nadadores, depois de ferida no acidente de aviação provocado pelo acesso de ciúmes do marido, é das cenas mais lindas e inesquecíveis que os meus olhos viram.
Contou-me que lia Nicholas Sparks, que tem a colecção toda, que o acha parecido com o Tiago Rebelo que também lê. Confessei-lhe que ando sempre com um livro na mala, como se fosse um penso higiénico de uso imediato para qualquer emergência íntima. Revelou-me que deixou de ir directa para casa a seguir ao trabalho e no dia de folga sai de manhã e só volta à noite. Ri-me com a sua audácia. Gosta de deambular pelo Rossio e pelo Saldanha, de se meter no cinema e no teatro. Mente ao marido e diz que uma colega lhe oferece os bilhetes e encafua-se nas salas sozinha, pela-se por histórias e actores e faz-lhe bem à cabeça, explica-me. Quando chega ao Barreiro já muito tarde pede ao marido que a vá esperar ao barco, não é por ser noite justifica-se, é para ele pensar que preciso dele. Trocamos um olhar feminino e maduro, éramos entendidas no assunto, aprovei-lhe o comportamento e escrevi-lhe Michael Ondaatje num pequeno papel, para ela nunca mais esquecer.

One thought on “Corte de cabelo

  1. mentir, para se meter dentro do teatro é das coisas mais bonitas que já ouvi, bem como o de ter o instinto de pôr o seu homem, de vez em quando, num pequeno pedestal.
    disse-me também que frequentemente vai para junto das bilheteiras à hora do espectáculo, porque há sempre pessoas que não podem ir ou têm bilhetes a mais, e já por duas vezes lhe ofereceram um bilhete assim, naquela emergência.
    e era uma mulher com um rosto tão desinteressante, tão provinciana…

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