O meu frigorífico tem vida

Tenho um frigorífico que escolhe a melhor hora do meu sono profundo para tocar um alarmezinho irritante como se alguém lhe tivesse aberto a porta e a deixasse escancarada de modo a perder a refrigeração. Então o sacana toca, toca e acende uma luz vermelha, durante a noite, penso que já é até de madrugada porque me deito sempre já é outro dia, já a noite vai a meio. Não interessa, estou a dormir, porra! Durante o dia está silencioso e eu abro e fecho a porta dezenas de vezes depois de chegar a casa. Abro a porta e a ventoinha da refrigeração pára, fecho-a e torna-se a ligar, obediente como mandam as instruções. Parece bom de saúde com os seus 10 anos de serviçal, meu escravo que é o que ele é, sempre limpo e conservado, que a dona é mulher asseada.
É de noite. Ás vezes já vejo luz na cozinha, e ele resolve tocar a buzina insistente, faz-me chegar descalça e atarantada junto dele, como se tivesse alma e quisesse companhia, e mimado obriga-me a abrir-lhe a porta e a carregar-lhe num botãozinho pequeno iluminado de alarme para que lhe seja provocada uma refrigeração rápida, urgente. Toma ares de gente. Reparem como está calado agora, sente-me acordada não precisa chamar a atenção.
Tiro-lhe a corrente. Juro que lhe tiro a energia para berrar se volta a clamar esta noite!

E eu que pouco durmo.

Tenho um amigo tarado que me faz telefonemas nocturnos para me dizer que acabou com a namorada, mas eu sei que foi ela que acabou com ele, e ele também sabe mas tem vergonha de o dizer. A gaja é nova, miúda e ele um sessentão. Disse-lhe que precisava de sentir sensações, coisas que a inundassem com força, que se calhar queria ter um filho e até casar, que dele gostava era do ombro e chamou-lhe ‘ternurinha’, e ele é homem pequeno, de ombros frágeis e mãos miúdas, que parece não lhe supriam as precisões. Quer ler-me ao telefone os mails dela, os sms’s dela, falar-me dela, porque diz que a ama, e enfatiza-me os ‘fofinhos’, os ‘amorzinhos’, os ‘queridinhos’, e eu arroto na minha cama com tanta proteína de carne e enfureço-me, e chamo-o de puto, mando-o ter juízo e digo-lhe que a outra o quer como um pai, mas não é com o nosso paizinho que vamos para a cama, pois não. E ele nem me ouve, e diz-me que está em deficit, descompensado, explica-se como engenheiro que é, que vende o Porsche, suplica por um terapeuta, por sessões com um psiquiatra, mas enquanto não marca pergunta se me pode telefonar. E eu mando-o sistematizar o problema, como qualquer matemática que se preze, sugiro-lhe que desenhe um balança, que escreva rectângulos de palavras e que as coloque nos pratos, que observe, que analise e ele responde-me que até pensa em se suicidar. É aí que abro a boca, lhe bocejo ao telefone, o chamo de filho e o mando ir tomar um Lexotan.
E eu sem dormir.

E eu que pouco durmo.

Desfaço-me dEles, sim dEsses mesmo, como quem abre uma carteira de cromos, verifica que são todos triplamente repetidos e já nem para troca se querem, vão fora.
Fecho a porta do carro e repito a oração: FastFood, FastAoPiso, VeryFast e FazmeEsseFavor.
Felizmente tenho lá isto para ouvir.

E agora vou dormir.

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