Os sapatos dos pobres são eternos

Ainda que não acredites, e é evidente que não acreditas, não nos vemos há anos, sou o que deixava a toalha oblíqua no toalheiro e tu endireitavas irritada comigo.
– Nem isto sabes fazer?
jurava dobrá-la e esquecia-me conforme jurava fechar as torneiras e um pingo sobressaltando o mundo e não largar as revistas no chão em vez de as alinhar na mesinha porque ao alinhá-las na mesinha me parecia viver num consultório e neste momento lembrei-me dos comboios e sorri, haja alguma coisa na vida que me faça sorrir, às vezes ao olhar o passado sorrimos como se o passado feliz, tu
– Estás a rir de quê?
e eu divertido a olhar para mim nesse tempo, não apenas os comboios, os sábados de feira, a carrinha do vendedor de botas e eu encantado diante das botas, a minha mãe a puxar-me
– As tuas aguentam um ano no mínimo
a comprar na tenda de roupa um vestido para ela quando o que trazia aguentava um ano no mínimo, ainda que não acredites passei esta noite contigo Maria Otília, a minha mãe colocava o vestido à sua frente no espelho, com manchas e insectos esmagados sem contar as alterações do vidro que lhe ondulavam o corpo, a medir a largura dos ombros contra os seus ombros, a calcular a bainha e a erguer uma das pernas fazendo-me pensar que o vestido aguentava um ano mas os sapatos não, devia entregá-los à cozinheira em cujos pés permaneceriam séculos visto que os sapatos nos pobres, mesmo desfeitos, eternos, passam de sapatos a chinelos, de chinelos a tiras e de tiras a ruínas, ainda que não acredites passei esta noite contigo Maria Otília e lá estou eu a sorrir aos comboios, eu no centro da cama onde os enfermeiros me puseram à espera que me toques e tu na pontinha do colchão esperando que eu não te toque e não toquei a fim de não ser expulso por um cotovelo maçado.
– Não se pode dormir?
à medida que o vendedor de roupa gabava a qualidade da chita, cada pingo da torneira um estrondo e os teus dedos a derrubarem o despertador no caminho para acender a luz

(cópia de um excerto do capítulo, 3 de Abril de 2007, do livro Sôbolos Rios que Vão, de António Lobo Antunes; os bolds são meus)

(este livro devia fazer parte do programa de Português de 11º ano ou 12º ano, como suporte ao exercício de interpretação de textos; estimo que o brilhante Nuno Crato se lembre tanto das letras como dos números, até porque os números são letras)

(sobre os Avishai Cohen, esta toada assenta aqui muito bem e acho-os geniais, esta música até me lembra o Fado)

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