Camisa Branca

Pró Rui

Ficava sempre com os teus caracóis nos meus dedos. E levava-os por diante num movimento repetido.
Depois havia aquele cheiro. Entranhado. Sempre igual.
E era aí que fechava os olhos.

Estás tão bonito nessa fotografia!
Tens um olhar muito triste, mas os olhos são grandes e vivos.
Pareces quando eras meu. (Não eras, mas eu dizia).

O colarinho da camisa aberta, sempre branca, era-me um deleite, e sobre o teu pescoço. De pele tisnada juntava-se com a nuca em perfeição, onde terminava o passeio dos meus dedos e ficava ainda ondulado.
E era aí que te dava um beijo.

Estás tão bonito nessa fotografia!
Tens os olhos juntos como os bonecos do Picasso, de onde saem dois traços para desenhar o nariz, que eu percorria com o meu queixo enquanto lhe sentia uma textura aquilina.
Pareces quando eras meu. (Não eras, mas eu dizia).

Só depois quando te olhava, agarrava-te nos lábios grossos, mais o debaixo, e tu deixavas. Brincava neles com maldade. Nunca sorrias.
Depois havia o queixo que me arranhava as mãos como eu queria, de barba feita, mas grossa, que desaguava novamente no colarinho branco com o teu cheiro, desapertado.
E era aí que te pedia.

Estás tão bonito nessa fotografia!
Tens a testa alta onde me espraiava e encontrava a tua cicatriz de criança, pequenina. As duas entradas no cabelo encaracolado, já grisalho, dois portos da paz que sentia.
Pareces quando eras meu. (Não eras, mas eu dizia).

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