Baixa #1 – Manjar Branco

Ao fim de dois dias de casa percebi que afinal me posso mexer mais, do que alguma vez supus. No entanto cada vez que me movo, ando, pego numa toalha, me espreguiço, espirro ou falo mais alto, verifico que utilizo a musculatura abdominal e sendo assim entro numa esquizofrenia ansiosa a julgar que no minuto seguinte me desfaço toda e me salta um ovário pela boca. Estou desassossegada e limitada nos meus gestos e movimentos, mas essencialmente sinto-me em síndrome de abstinência, por estar a racionalizar egocentricamente todas as minhas acções, respirações, pensamentos e suspiros. Mais uns dias assim e fico doida, pensará toda a gente que me oiça, e até eu própria o julgaria se não soubesse das resistências de aço que ganhei no internato da minha adolescência onde enfrentei gigantes malditos, fantasmas trocistas e luzes nocturnas de vigia acesas sobre os meus olhos, tortura das minhas noites, mas que me vacinaram desgraçadamente para a vida.
Já entendi que posso ocupar o tempo a ler, ó tempo bendito que constantemente reclamo, que posso ver filmes, que posso olhar pró ar, que posso fazer círculos com passos de bebé à volta do meu prédio, que posso chegar devagarinho até ao jardim, que posso partilhar mais-estar com os meus filhos e que, e essa foi sem dúvida uma maravilhosa descoberta, posso inventar coisas para fazer.

Os livros de receitas da Avó Emília

Quando a casa grande dos avós foi fechada e os móveis, as roupas, e os objectos foram distribuídos pelos filhos, consegui que me viessem parar às mãos algumas relíquias que prezo de coração. Por diversas vezes apanho-me a acariciar os livros de cozinha manuscritos pela letra irregular da Avó Emília e pela letra caligráfica e de timbre comercial do Avô Brito, que tantas vezes à noite, depois de deixar a extenuante escrita dos negócios, gostava de se sentar com ela na saleta e lhe passar receitas, guardadas em papeluchos, para dentro daqueles livros sagrados. Gosto de passar os meus dedos, por sobre as linhas escritas por eles, com quantidades de ovos, junções de açúcares e envolvimentos de farinhas. Sorrio com as mascarras dos livros, que denunciam dedos sujos de massas ou de azeite, a virarem as páginas naquela cozinha de azáfama, de chão forrado a mosaicos quadrados, um cor de tijolo e outro amarelo torrado, (e eu às vezes só pisava os amarelos), com a mesa larga de pedra mármore preta e branca cheia de utensílios e alguém a dizer, que vinham mais os tios pró jantar.

Mas então, no capítulo Inventar, de coisas que posso fazer, decidi digitalizar todas as páginas daquelas Sagradas Escrituras. Preservo as receitas, posso partilha-las com os primos, que na verdade nunca as reclamaram mas eu desconfio que lhes vou partir o coração, e ocupo uma série de horas do meu novo tempo.
É bom tomar decisões. Sinto-me mais gente.

Manjar Branco

1 litro de leite
4 colheres de farinha de arroz
10 colheres de açúcar

Faz-se como o creme, mas fica um bocadinho mais duro.
Deita-se aos montinhos num tabuleiro e vai ao forno a tostar em banho-maria.

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