Por mim, pode ser assim

“Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer:

‘Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio’.

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. ‘Adeus! Adeus!’
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes…(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… ), a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve… tão sutil… tão pólen…, como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…”

José Gomes Ferreira
(Porto, 9 de Junho de 1900 – Lisboa, 8 de Fevereiro de 1995)

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