O tempo tem mais olhos que barriga #1

Ando a ficar obcecada com o tempo. O meu tempo. O tempo que passa é irremediavelmente perdido e isso faz-me pena. Deveria guardar tempo para ler 3 vezes mais porque tornaria o meu tempo mais cheio e provavelmente inesquecível. As coisas que não temos e as pessoas que nos deixaram, com o tempo, vão ficando sem cor e isso faz-me pena.
Vou a partir de agora falar muito mais do tempo, sempre em pouco tempo porque nunca o tenho.
Encontrei um bocadinho de Miguel Torga sobre o esquecimento no tempo, muito interessante. Dedico ao R.

Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos. Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.

Miguel Torga, in “Diário (1940)”

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