Para a São e para a Geralda

Hoje encontrei a São, uma ex-colega de liceu, que conheci quando migrei daquele ‘bendito’ colégio para o liceu, e para minha estupefacção ela reconheceu-me! Eu não. Passaria por ela, dezenas de vezes e não a identificaria. Não por falta de memória visual, porque dentro do meu potencial de memórias ainda é a melhorzinha que tenho. Não a reconheceria com facilidade porque ela existe num mundo completamente diferente do meu. A São é de origem cabo verdiana, era modesta e continua modesta. Trabalha no Continente.

Sempre tive uma tendência enorme para me dar, conviver, estar, com pessoas absolutamente oponentes, facto que, só posso atribuir à minha compulsiva curiosidade, pois nem sequer sou um ser humano muito amigável ou simpático que justifique tamanha amplitude social. Assim, no liceu tinha a minha versão pitoresca e campestre e acompanhava a São até à casa dela na Damaia-de-Baixo, bem como, fazia pandilha com uma Maria da Graça (que tinha um ar de putéfia desgraçado) e um Paulo, moradores no Casal de Cambra, para onde de vez em quando me escapava para umas tardes dançantes numas garagens mal-cheirosas, onde também se bebia cerveja e se comia frango assado. Em perfeita sintonia e com o meu arzinho inocente, vestia a saia de Terylene azul escura com uma collant a condizer, envergava uma camisa branca e um pulloverzinho bordeaux, e estava em linha para aparecer nas festas da Paulinha Moura, na Avenida de Roma onde estavam os primos dela (que eram giríssimos), mais uns outros tantos betos da zona.
Bem, mas falei aqui da São e falo igualmente da Geralda, que é a mulher negra que limpa as retretes no sítio onde trabalho, porque as admiro. A voz calma e pachorrenta das duas, a risada aberta de dentes largos, a aceitação da vida, das vidas delas, umas vidas extremamente difíceis, sem dinheiro, sem luxos, sem perspectivas, sem pedidos, esmagam-me! As negras cabo verdianas, e ambas o são, têm uma alegria intrínseca invejável!
Eu, branca pálida e hoje por sinal arrasada, gostava de perceber esta receita de passividade e positivismo. Como se consegue?
Aproveito igualmente para fazer um louvor à Geralda, que foi a única pessoa, na digna Instituição onde trabalho, que veio ter comigo na Quinta-feira passada e me desejou uma Boa Páscoa. Há uns tempos, tinha-lhe dado um saco com roupas antigas dos meus filhos para os dela, talvez por isso ou pela simpatia natural com que gosta de se chegar ao meu mundo.

Ah, e gosto de dançar Kizomba!

2 thoughts on “Para a São e para a Geralda

  1. Gosto de ir ao teu blog de manhã quando chego ainda ensonada e sem vontade de pegar nos meus trabalhos chatos. Gostei do teu texto sobre a Páscoa na tua avó e sobre a Geralda e a São. Podia não saber que foste tu que escreveste porque mesmo assim saberia que eras tu, a Luisa. Imagino-te perfeitamente a fazer caretas ao bébé para ele chorar como te imagino nas festas das tuas amigas de Cabo Verde e da Av. de Roma. Em ambas critica e de olhos bem abertos!
    Vejo-te comovida com a Boa Páscoa da Geralda nesse mundo frio e hostil onde agoras trabalhas e na cozinhas à procura dos cheiros que já não voltam e sinto-me orgulhosa de ser tua amiga!

    1. E puseste-me a chorar Teresinha.
      E logo de manhã!
      Eu sei que sabes tudo e percebes tudo, porque és uma grande amiga de coração, e me sabes como eu te sei e é por isso que escrevo um bocadinho para ti, também.

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