Couve Roxa

Hoje comi imensa couve roxa ao almoço. Um prato de couve roxa, meia-entalada a acompanhar uns pedaços de carne sem jeito.
Aqueles imensos filamentos roxos enrodilharam-se nos meus olhos e fizeram-me partir.

Sentei-me à mesa num restaurantezinho vazio, cosy, pequeno, informal e amoroso, com mesas e cadeiras de madeira escura, toalhas aos quadrados e velas na mesa. Não havia candeeiros mesmo, só uma ou outra vela, hábito maravilhoso de iluminar jantares na Europa do Norte. A sala era obscuridade e estava quente.
Estou em Praga, numa ruazinha que não lembro o nome, excepto que estou junto a uma das entradas para o fantástico, Parque Petřín. Vim da Ópera Nacional de Praga, estive a ver Il Barbieri di Sevilla e ri-me tanto! Bebi champanhe no intervalo com a absoluta informalidade de um checo. Estou com o François.
O François, tinha marcado mesa num restaurante fantástico e luxuoso de Praga, mas era tarde, e só poderíamos ter tido a veleidade de entrar até às 9h00 da noite. A ópera tinha sido longa, mas para uma portuguesa e um francês, nessa noite sem relógio, qualquer hora seria ideal para jantar.
– Forget the restaurant, François!
Estamos frente a frente, numa mesinha para dois junto à janela larga. Não há mais comensais. Os empregados são jovens e já estão sem avental sentados em cima das mesas a conversar e a fumar. A ementa está escrita em České. Rimo-nos com os pratos da ementa. Rimo-nos por não percebermos nada de České. Escolhemos dois pratos sem qualquer critério, simplesmente porque relacionamos com a língua inglesa, uma ou duas palavras da frase que os descrevia. Rimo-nos a pedir os pratos. Rimo-nos porque estávamos ali. Rimo-nos, porque ambos adiamos a ida para os nossos países e oferecemos uma noite a Praga. Rimo-nos, porque eu era uma mulher e ele era um homem, e não tínhamos relógio nessa noite.

Chegam dois pratos redondos, largos, brancos. Fumegam. É uma rapariga magra, loura, elegante nas calças de ganga justas e no avental preto e longo que atou à cintura fina, que nos presenteia com as nossas escolhas surpresa. Cheira bem.
-Smells good, Luísa!
Há molho espesso, avermelhado, denso e quente nos dois pratos. Há fatias de pão branco, mal cozido, ligeiramente adocicado. Há lascas de batata-doce, amarela. Reconhecemos o cheiro intenso do gulasch, com cominhos, cebola, pimentão e uns pedacinhos cerimoniosos de carne. O prato do François tem ainda uma montanha de couve roxa, desfiada finamente e ligeiramente cozida, que a tornou num esparguete roxo e lindo, no lindo do vermelhão do gulasch naquela sala com penumbras de vela e excitações contidas por tanta descoberta.

Juntamos os pratos no centro da mesinha pequena onde nos sentamos. Os pratos brancos tocavam-se num ponto e juntos pela magia do nosso olhar, deixaram de ser pratos para ser travessa. Com precisão e acordo mútuo, mergulhamos os garfos esfomeados naquelas substâncias calóricas, proteicas, odoríferas e sem pudor, nem licença, misturamos os fios de couve roxa no molho vermelho do pimentão e assim empapados, enrolamos os fios roxos nos garfos, como esparguetes bolonheses italianos, mas estávamos em Praga, e abrimos as bocas num orifício enorme onde mergulhámos os garfos pingantes de sabor, enquanto deliciados, vimos um no outro, sorrisos belos de boca cheia.

3 thoughts on “Couve Roxa

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