Como vai ser?

WomanFactory1940s

Vou ter cortes no ordenado mensal que recebo e me tinham prometido.
Prefiro a palavra salário a ordenado. Salário é mais chegado ao trabalhador, ao operário, ao assalariado, à arraia-miúda. Salário vem do latino sal, porque era com sal que se pagava aos soldados romanos antes da cunhagem da moeda. E o sal, usado para a conservação dos alimentos, lembra-me o uso que dou ao meu salário: conserva a existência de duas criações que fiz, mais a minha própria, para que possa voltar a ganhar o ‘sal’ no mês seguinte.
Trabalho há 24 anos e tinha 23 quando o comecei a fazer.
Comecei por ser trabalhadora independente, paga contra o famoso, ‘recibo verde’ (um verde deslavado). Na realidade era nessa altura mesmo independente, não tinha marido, filhos, casa própria e comecei a ver o dinheiro a crescer no banco, quando o juro era alto e não havia cartões multibanco. Lembro-me que foi somente nessa fase, que comecei a olhar um pouco para mim, na forma de vestir e calçar e arranjo do cabelo, facto que me levou muito pouco tempo depois, a tornar extremamente consumista em roupa e sapatos, até porque para ajudar, abriu por essa altura, a Zara em Portugal. Lembro-me também, que tinha ainda tão poucas despesas, visto morar na casa dos meus pais, que por vezes, estava dias e dias sem depositar o cheque do salário. Bons tempos!
Após passagem por empresas consultoras a desempenhar vários papeis, um 1º período como professora de Matemática no Alto da Damaia, eis que um antigo professor me recomenda para uma Companhia de Seguros, coisa mais séria, com horário rígido e cartão pica-ponto, com entrada imediata para os quadros da empresa.
Tempo maravilhoso e áureo passei nos Seguros, onde me cruzei com pessoas extraordinárias, onde trabalhei de sol-a-sol a implementar a microinformática, a coisa mais moderna da época, onde aprendi a saber estar, a saber colaborar e trabalhar em equipa, e onde, não muito bem paga no inicio, fui crescendo rapidamente na carreira e no ordenado.
Chegava 1989 quando resolvi casar e mudar de empresa. A confiança profissional crescera, a ambição pessoal tornara-se um diospiro maduro e o capital na conta bancária no extinto Crédito Predial Português, era bem bom para uma rapariga de 25 anos.
Hoje, 22 anos após ter entrado num dia bonito de Setembro no banco, sinto-me soterrada e abandonada pela fé na missão. Sinceramente desde que entrei na faixa dos 40 anos, resolvi pôr tudo em causa e deixar-me encher dos devaneios e anseios de todas as coisas que quero fazer antes de morrer. Como entretanto, a Sô Dona Morte me deu um ‘passou-bem’, mais razão me dei nas minhas quimeras, e a vontade de alterar umas coisas e dar abanões a outras foi-se instalando dentro de mim.
Até que, em 2008, 2009, 2010 e agora em 2011, é-me anunciada a Crise. O meu país deve muito dinheiro e precisa de pedir mais dinheiro e sendo assim, o meu país não consegue pôr o conduto na mesa de refeições do seu povo. Uma sopa forte, e nós lusos cozinheiros que a fazemos tão bem, será que se arranja? Mas o cheirinho a quente aveludado de uma Juliana temperada de azeite e carne, parece já não sair da cozinha.
Como vai ser?
Na minha vida de trabalhadora a quem sempre, direitinho, pagaram o ‘sal’ na quantidade que me tinham prometido, é a primeira vez que esta pergunta surge. Afortunada sou, é evidente, pois precisei de 24 anos para a fazer.
Como vai ser?

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