Dizer “Mal”

Recebi esta madrugada um mail, proveniente do Tal Senhor Gestor Público a que me referi aqui anteriormente, com um texto já velhote da Clara Ferreira Alves e publicado no Expresso, somente a dizer “Mal”.
A capear o tal texto, o Senhor Gestor Público de apelido Romão, dizia o seguinte: “Vale a pena ler. De que estamos á espera?”
Sugere assim a 50 e tal mortais a quem também envia o mail, que façamos alguma coisa, que nos mexamos, que levantemos bandeira contra o “Mal” que a Clara delata de tão habituada a estar naquelas sessões televisivas, extenuantes e tão intelectuais que metem nojo, dominadas “Eixo do Mal”. Que saudades tenho das “Noites da Má Língua”, com o Miguel Esteves Cardoso, o Rui Zink, a Rita Blanco e o chauvinista do Norte comandados pela Júlia Pinheiro, quando ainda não tinha virado saloia nem fazia “As Tardes da Júlia” onde agora entrevista médiuns, espiritistas e senhores que curam dores de corno com poderes transcendentais (Romão, toma atenção a estas matines)!

Passo a explicar os “Males” a que a Clara se referia: era o mal da injusta justiça portuguesa que não trata dos que apitaram o dourado, nem de quem matou Sá Carneiro, nem do Isaltino que continua com cara de chulo, nem do padre Frederico que está no Brasil, nem da Madie que não devia ter morrido, nem do sangue infectado da Beleza, nem do Albarran mais o Carlucci, nem de revelar os Bibis da Casa Pia, era o mal dos jornalistas que são mais poder que o Poder e se sentam à mesa do Poder para comer de um prato comum e agradecem-se olhos nos olhos como se orassem a Deus, era o mal do chefe do governo, sem estudos ou estudos numa privada (que é a mesma coisa na opinião dela e ninguém me tira da cabeça, que foi pela mesma razão que o pobre do Paulo Teixeira Pinto saltou do BCP, aquele curso de direito na Livre não passava incólume num bando de escrupulosos puristas) e para terminar o mal da própria democracia portuguesa, conspurcada, corrupta, falhada! Um texto dantesco, mas escrito numa prosa inflamada, prontinho para promover a associação fácil e bacoca para juntos (pelo menos aos compradores do Expresso), dizerem “Mal”.

De algum modo surpresa pelo dito mail (depois de uma ameaça de mortandade estar eu ainda na sua lista de endereços), lembrei-me que o tal Romão que mo enviava, é um famoso, conceituado, bem cotado, bem na vida, bem posto, (bem-bom), Senhor Gestor de dinheiros, vejam só, provenientes do erário público! Pois é! Mas estaria porventura distraído, que faz parte dos executivos da empresa que emprega capitais públicos (sim, vindos dos impostos, taxas, coimas, que todos pagamos até pelo ar que respiramos), chamados capitais de risco, em sítios que se desconhece, que não vêm a público, tal é o risco em que se arriscou, que não se sabe porque se arrisca ali em detrimento de acolá, que não se sabe que capacidades têm aqueles senhores para deixar cair aquela empresa ou negócio e injectar capital na outra, que não se sabe, quanto dinheiro já foi mal apostado, quanto dinheiro se perdeu e se alguém é avaliado e castigado por ter feito asneira!

Senhor Romão, o senhor já se esqueceu que aufere um ordenado digno de um gestor sueco, (gestor sueco antes da crise, porque neste momento o gestor sueco já baixou o seu próprio ordenado), tem um carro de luxo, ajudas de custo e cartão de crédito, viagens e deslocações, almoços e jantares e tempo! O senhor tem tempo livre! Pode ir ao ginásio, à sauna, à massagem e à bruxa. E sei que ainda lhe sobra uma perninha, para comer alguma presa feminina bem em cima da mesa de trabalho no seu gabinete minimalista com vista para a Praça de Touros lisboeta, à luz ténue do candeeiro de pé em aço inoxidável.

Romão, filho, não sejas inocente e não te deixes sensibilizar tanto pela emoção na escrita de uma mulher que sobretudo, precisa de ajudar a vender o jornal para onde trabalha e tu, põe-te de gatas (uma posição que te é tão querida), e agradece a esta nação valente e nobre povo que continuam a pagar-te um bom salário no final do mês.

(Nota da autora em 17-05-2010: este texto foi escrito no desconhecimento de uma série de factos que já tinham ocorrido ao “tal gestor público”, personagem principal do texto)

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