Um Domingo Qualquer

Tenho um caderninho que alguém me trouxe da Índia onde estou a escrever, é feito de papel grosseiramente reciclado com aspecto de papel mata-borrão. Como achava graça ao papel mata-borrão cor-de-rosa, que aparava o pingo de tinta da caneta permanente que me ofereceram na 4ª classe! O borrão caía e fazia uma mancha que alastrava, fazia feitios, pareciam caras, como foi boa a minha infância! O tempo grande da minha vida! Onde me deixaram ter espaço para imaginar caretas nos borrões azuis que inundavam o papel macio cor-de-rosa ou quando ía à igreja na aldeia com a minha avó, rezar o terço, e as mulheres punham um véu pela cabeça, e eu de mãos juntas fingia rezar e abria os meus olhos grandes para olhar as mulheres a rezar com fervor, adorava quando suspiravam entre a “Avé-Maria” e a “Santa-Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores”. Parecia que lhes saíam os tormentos no suspiro e fechavam os olhos e o véu abanava com os movimentos dos maxilares, os véus eram de tule preto com pintinhas e rendas a debruar e  elas invariavelmente tinham o cabelo apanhado num carrapito seguro com um gancho a que se chama travessa e eu juntava mais as mãos, cerrava muito os olhos e jurava que seria boa como Maria, Nossa Senhora mas como por magia, quando cerrava os olhos com muita força, começava a ver cores, nunca percebi bem o fenómeno e rapidamente me distraía da minha vontade de ser santa, abria e fechava os olhos com força e as cores saiam cá para fora. Eram lindas! De repente sentia a mão da minha avó: – Luisita, vamos embora está na hora! – Mas que hora? – pensava eu , nas infâncias belas não há horas, o tempo é grande e passa devagar….

 Agora adulta, sento-me na areia quente de uma praia qualquer, junto as pernas ao peito, agarro-as com os braços e olho o mar, lá vai, lá vem, os movimentos são sempre iguais, mas nunca cansa a sua repetição, o azul intenso, a luz aberta, o quente na pele.Deito-me para trás, sem toalha, gosto de me sentir suja de areia e o quente da mãe terra é um ninho acolhedor, abro as mãos e deixo a areia escorrer pelos buracos dos meus dedos, fecho os olhos com força o sol bate-me em cima e vejo cores, são quadradinhos de papel de seda como confetis, azuis, amarelos, verdes, rosas e vermelhos. Sorrio, fico com a boca comprida quando sorrio assim. Gostava da praia só para mim, em silêncio.

– Mas porque é que as crianças gritam e chamam tanto pela mãe? Levanto-me, sustento-me no antebraço, um rapaz e uma rapariga beijam-se apaixonadamente de pé em frente ao mar. É tão indiscreto olhar para os beijos entre duas pessoas. As cabeças que mudam de posição e ele compõe-lhe o cabelo comprido que tapa o rosto dela e ela passa-lhe uma mão esguia com as unhas compridas pintadas de preto, pelo corpo dele.

Carla olhou para  Bruno, sentado no sofá. Não podia continuar mais aquela farsa! Pegou no saco e nas chaves de casa, os miúdos brincavam no chão com um jogo de peças barato: – Onde vais mamã? – A mãe já vem! – disse ela.

Bateu com a porta, saiu. Abriu a sacola, verificou se tinha dinheiro, óculos escuros e telemóvel. O que tinha dava pró comboio, precisava pensar, apanhar ar, sufocava naquela casa. A caminhar, mandou um sms a Paulo: “Estou só. Gostava de te ver. Podes?”

Sabia que não teria resposta, mas fê-lo na mesma, sentiu-se acompanhada, ficaria à espera: – É sempre melhor ter alguém para esperar – pensou. Meteu-se a caminho, autocarro e comboio para a Linha. O trepidar do comboio acalmou-a, encostou a cabeça no vidro quente, pareceu-lhe um ombro de um homem, olhou o visor do telemóvel, nada.

 O areal repleto de famílias debaixo de chapelinhos coloridos, risadas, à beira-mar as crianças gritam, chapinham, chamam pela Mãe, lembrou-se dos seus filhos, o André e a Patrícia, em cima da carpete desbotada, de peles branquinhas descoloradas pelas longas horas de infantário a que eram sujeitos, ter-lhes-ia feito bem, apanhar um pouco de sol, descalçou as sandálias de tiras, levava uns corsários brancos e uma T-shirt verde, tirou os óculos da cara e prendeu os cabelos compridos que teimosamente lhe tapavam os olhos, sempre gostou de ter o cabelo comprido, olhou o mar, que lindo estava! Um vai e vem de ondas, a água fria chegou-lhe aos pés, gritou! Como lhe dava energia aquele azul, sentiu-se feliz no nada. Pensou em Paulo, nos braços que a apertavam e lhe davam prazer, levantou a areia molhada com o pé e pontapeou-a para longe, outro pontapé, outro, e mais outro, reparou que já incomodava quem passava com salpicos de água e de areia, deitou-se na areia quente, percebeu que nem toalha trazia.

Despiu a T-shirt e ficou com a parte de cima de um biquíni usado que já não lhe favorecia o peito grande de mãe. Esticou o corpo pela areia e sentiu-se um lagarto ao sol, enterrou os dedos e as unhas pintadas de um verniz incolor um pouco descascado, na areia. Meteu-os fundo, como se quisesse perfurar o chão, começou a sentir a areia molhada que se metia por entre as unhas e lhe fazia doer. Pensou na vida, na infância rápida, na juventude vazia e com poucas oportunidades, no casamento com o namorado de sempre que nunca passou do garoto que foi seu vizinho na rua onde morava com os pais, o curso de Direito que conseguiu tirar enquanto trabalhava, o que lhe garantia hoje um emprego com responsabilidade e um ordenado compatível, os filhos que teve e tanto queria ter, como fêmea procriadora não descansou enquanto não se viu prenha, a casa pequena muito fora de portas que a envergonhava, três camisas e dois saia e casaco que levava às reuniões e audiências em tribunal, a vida sem rumo,  um companheiro sem objectivos, sem futuro agora desempregado, sem rosto, sem sorriso, arrastava-se pela vida, afundava-lhe a dela.

Adormeceu….embalada pelos sons da praia e pelo sussurrar do mar, que lhe fez parecer os gemidos silenciosos dela e do amante.

Regressa a casa, um homem adormecido no sofá, os miúdos sentados no chão as peças do jogo barato espalhadas à volta deles, viam um vídeo cansado de desenhos animados, havia um cheiro a pizza e a ranço no ar:

 – Mamã, já voltaste? Comemos pizza!

Pegou neles, lavou-os, beijou-os e deitou-os, aninhou-os nas suas caminhas limpas.Olhou-se no espelho do quarto e despiu-se, tinha a pele vermelha do sol e uns olhos bonitos, o telemóvel vibrou em cima da cómoda, nua, agarrou nele com avidez, mensagem, e leu:

Carlinha, desculpa n vi a msg L. Estive na praia c a Isabel e miúdos. Estava um dia fantástico, devias ter ido também! J. Beijocas. Amanhã mostro-te o bronze! J

 

 

 

Domingo, 6 de Julho 2008

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