Gladíolos

Com a idade a gente muda. Agora dou umas escapadelas à hora do almoço mas para ir regar. A horta.
Deparei-me com a floração dos gladíolos, bolbos plantados em Dezembro, crescimento tímido e de repente fazem-se Mulher. Lindos, orgulhosos, pétalas de veludo. Não resisti arranquei-os à terra, quero-os perto de mim no meu quarto, escarlates, eróticas espadas.
Até o nome gladíolo é lindo. Esdrúxulo. Raro.

Os gladíolos também chamados de palma holandesa ou palma-de-santa-rita, são plantas originárias do continente africano, de Madagáscar, da Europa e do Oeste asiático, mas o maior número de espécies encontra-se em África. Podem ter uma grande variedade de cores e, quase sempre, apresentam um colorido brilhante e uma enorme exuberância. O seu nome vem do latim “galdiolus” e significa espada, sendo cultivadas desde os tempos mais antigos. São largamente cultivadas no mundo inteiro, por causa dos seus cachos altamente decorativos e que têm grande valor comercial.

Silêncio, a noite

Voltei ao Sassetti. Os cedês estão ali à mão, espalho-os no banco ao lado, olho-os enquanto conduzo. Faço as ruas de Lisboa várias vezes, muitas são as mesmas quase sempre, às vezes vario-as só para ver ruas diferentes mesmo que me levem a caminhos maiores, estranhos e longos. Conduzo muito à noite, vou bastante ao Bairro Alto, desço pela Rua das Amoreiras passo o Pátio Bagatela, do outro lado o Ginásio Clube, Rato, depois, ou apanho a Rua da Escola Politécnica pró Camões e mais tarde para o Cais do Sodré, ou a de São Bento se quero desaguar em Santos. À Sexta frequento muito as avenidas para o Parque das Nações prós lados da Torre Vasco da Gama, é normal até, num ápice viajar de Santos até ao Trancão traçando veloz a marginal ribeirinha que à noite é de paz, vazia, com umas réstias de contentores, porto abandonado de Lisboa,  24 de Julho, Avenida Infante Don  Henrique, Rua Cintura do Porto, Braço de Prata, arredondo-me no Cabeço das Rolas e entro pela Don João II como uma quase esposa de el-Rei, tal domínio apresento na avenida que rasgo sem pudor. Também viajo ali prós lados da Alameda, Técnico, Rovisco Pais, Praça de Londres, Avenida de Roma, Avenida do Brasil, Campo Grande e Entrecampos. Às vezes paro em segunda fila para tomar café na Mexicana e vou ao King, muito. Gosto especialmente da Praça Paiva Couceiro, pejada de delinquentes tristes de Lisboa, bêbedos e toxicodependentes, mas é uma praça com estilo há prédios lindos, decadente. Pela manhã desço muitas vezes pela Avenida do México e entro mais à frente na Avenida de Paris, rua de gosto imenso por ter um traço nostálgico da cidade, Areeiro, Gago Coutinho e apanho a via rápida que vai dar a Chelas. Ao fim de semana fazer a A5 é já um hábito, nunca chego a Cascais nem entro pela Estrada da Malveira da Serra, evito, só me trás boas recordações malvadas que dão cabo de mim – odeio-as, quando volto a Lisboa subo ao alto de Monsanto até à prisão e depois desço devagarinho e em êxtase a íngreme ladeira até ao dominicano São Domingos de onde vejo Lisboa e o rio como num IMAX, e não me canso dela. Não é que eu faça muita estrada, eu faço é Cidade. Mas voltei a escolher o Motion dentro dos vários que ali tinha, ele, o Carlos Barretto mais o Alexandre Frazão, e descobri hoje que, nunca tinha dado devida atenção à Faixa 13 que é de uma profundidade atroz, de uma beleza incrível e que se cola como uma luva ao movimento que induzo no motor da minha viatura para comer metros de asfalto, devorar horas de espera em semáforos, mastigar paragens em rotundas e passagens de peões e sobretudo alimentar-me de ver. Olhar.

Silêncio, a noite.

Sem tempero

O Traste, com necessidade de inventar expressões com uma boa sonoridade para disfarçar o vazio.

“espírito de crescimento” (Cavaco Silva)

Duarte Lima, filho, continua a dar com a língua nos dentes, que nem sabes a satisfação que me estás a dar!

“Ricardo Salgado, presidente da Comissão Executiva do Banco Espírito Santo (BES), foi alvo de escutas telefónicas montadas por inspectores tributários de Braga, no âmbito da investigação de um esquema de fraude fiscal para movimentar milhões de euros para o estrangeiro que na semana passdada resultou na prisão preventiva do gestor de fortunas suíço Michel Canals.
Além de Ricardo Salgado, também José Maria Ricciardi, seu primo e presidente da Comissão executiva do BESI (o banco de investimento que tratou da entrada dos chineses da China Three Gorges no capital da EDP e da State Grid na REN), teve os telefones interceptados durante vários meses.”(Revista Sábado)

Quando vejo um assunto crime, ser escrito, debatido, peixeirado, enovelado e adulterado por mais do que uma semana, já sei qual vai ser o seu fim: No pasa nada!

“O que está realmente em causa é que há uma direita que encarava, automaticamente, as suspeitas contra ministros de esquerda como verdade absoluta e que agora encara, automaticamente, as suspeitas contra ministros de direita – supostamente, claro – como farsa inaceitável. São os mesmos que aplaudiam energeticamente o Sol, quando este passava os fins de semana lançando suspeitas contra Sócrates, os seus ministros, os seus amigos e os seus parentes. Mas são os mesmos que se lançaram como lobos ao Expresso – e agora ao Público, independentemente da falta de credibilidade do mesmo – por este publicar uma manchete em que acusa um Ministro pertencente a uma seita semi-secreta de receber mensagens no seu telemóvel de uma figura chave dos serviços secretos, de estar envolvido no caso.” (O Insurgente, 19 Maio 2012)

Eu acho, tenho mesmo a certeza, que ninguém deu conta que, quem está a governar o país é o Banco de Portugal.

“Gaspar desiquilibra salários dos gestores da Caixa. Fosso salarial na gestão da Caixa chega a 11.000 euros” (Jornal de Negócios)

Cebolas

Acho isto lindo. Os poetas são realmente pessoas especiais que conseguem dizer as coisas muito melhor que ninguém. Mesmo que não haja rima nem grande simetria, o facto de o design das frases estar na forma de poesia torna os dizeres muito mais belos e profundos. E as mulheres descascam tantas cebolas ao longo da sua vida, de pé encostadas ao balcão da cozinha, primeiro despem-nas do casaco, da camisa, põem-nas a descoberto como um peito de homem, depois transformam-nas em alimento com a utilidade redentora das suas mãos.
O poema, li-o no Blog, As Folhas Ardem, sitio encantado que ando a seguir.

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

(Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.))

Os donos do Mundo

Isto sou eu a olhar o G8 em Camp David, enquanto dizem acertar na criação de disciplina orçamental para combater crise económica.

Ao fim da cúpula, Obama deve reunir-se com dois dos líderes mais alinhados às suas posições, o novo presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel. A reunião bilateral terá como principais temas o crescimento e a austeridade, como remédios para a crise.

(gosto mesmo é dos bonecos do Yoshitomo Nara, faz uns serezinhos que podiam ser uns fofinhos a concorrer com a Hello Kitty, e põe-os com umas expressões duras, raivosas, doridas, reais; são muito o meu género)

Tomates recheados

Munimo-nos de tomates maduros e cheios. Tiram-se as tampas aos tomates. De seguida procede-se à curetagem dos seus interiores. A polpa extraída mistura-se com o que se quiser – carne, peixe, legumes, molho branco, queijo ou cogumelos. Eu, envolvi-a com alho francês, noz moscada, limão, sal, azeite e bati com a varinha mágica. Por fim, levam-se os tomates ao forno para assar. Gosto deles pretos.

O inoportuno empregado

Achei importante replicar o corajoso artigo, Um rapazola a quem calhou ser primeiro-ministro, do Daniel Oliveira.

“Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade.” Pedro Passos Coelho

 (daqui)

Também:

Mar da calma

Ao António, que partiu hoje por ter ’bichos-carpinteiros’ mas que volta sempre.

Ó mar salgado eu sou só mais uma,
das que aqui choram e te salgam a espuma.

Ó mar das trevas que somes galés, meu pranto intenso engrossa as marés.

Ó mar da Índia lá nos teus confins, de chorar tanto tenho dores nos rins.

Choro nesta areia, salina será, choro toda a noite seco de manhã.

Ai ó mar Roxo ó mar abafadiço, poupa o meu homem não lhe dês sumiço!

Que sol é o teu nesses céus vermelhos, que eles partem novos e retornam velhos?

Ó mar da calma, ninho do tufão, que é do meu amor seis anos já lá vão?!

Não sei o que os chama aos teus nevoeiros, será fortuna ou bichos-carpiteiros?

Ó mar da China Samatra e Ceilão, não sei que faça sou viúva ou não?
Não sei se case, notícias não há. Será que é morto ou se amigou por lá?

Os Terciários

O sector terciário, também conhecido como o dos Serviços no contexto da economia, envolve a comercialização de produtos em geral e a oferta de serviços comerciais, pessoais ou comunitários, a terceiros.

Os serviços são definidos como “bens intangíveis”. Em termos de Marketing, os serviços são muitas vezes utilizados como um meio de gerar valor ao produto. Tal noção, está intimamente ligada à adição de “anéis” (acréscimo de valor), ao que é chamado “caroço” do produto, ou seja, o produto na sua função mais básica. Um exemplo clássico desta ideia é o chamado serviço de pós-venda, ou seja, a assistência que é prestada ao cliente após a venda do produto é entendida como um serviço prestado que valoriza o produto pela garantia da assistência. Foi adicionado um anel em forma de serviço, à essência de função do produto.

O sector terciário da economia envolve a prestação de serviços às empresas bem como aos consumidores finais. Os serviços podem envolver o transporte, a distribuição e a venda de mercadorias do produtor para um consumidor ou podem envolver a prestação de um serviço. Os produtos podem ser transformados no processo de prestação de um serviço, como acontece na restauração ou nos equipamentos da indústria de reparação, no entanto, o foco incide sobre as pessoas, servindo o consumidor mais do que a transformação de bens físicos.

(adaptado da Wikipédia)

Moral da História: Vão-se os anéis mas fique o caroço.

Ginecologia

Uma amiga da minha Mãe contava com imensa graça que sempre que saía do ginecologista no final dos exames anuais de rotina e a observação era negativa para toda e qualquer maleita, a primeira coisa que fazia era entrar no Galeto, (que saudades tenho dos meus encontros juvenis no Galeto) e pedir o maior duchaise que lá houvesse que saboreava lentamente com um prazer desmedido em tom de galanteio, tão ufana se sentia por ter passado na difícil prova de saúde.
Pois assim estou eu, embora não tenha comido o duchaise, não por modéstia, mas porque simplesmente o Galeto ficava longe, festejei com igual pompa, parabenizei-me com dignidade, afaguei o âmago numa mimalhada de mete-nojo. Mereci.

Benditos órgãos, sagradas entranhas, exímio funcionamento, pois Deus Nosso Senhor os conserve assim, agora e por todo o sempre. Amén.

Recomeçar

Recomeçar é voltar a lavrar a terra – abri-la, arejá-la, adubá-la, penteá-la – e plantar de novo.

Recomeçar é enchermo-nos de coragem e fazer tudo outra vez. Melhor do que na última vez, porque aprendemos com erros cometidos ontem.

Recomeçar é voltar a sentir alegria por sabermos que vamos fazer crescer e que redobrarão os nossos cuidados e carinhos para que tudo corra bem.

Recomeçar é querer sentir responsabilidade, é desejar que faça sentido.

Corta-Relva

O Relvas não se lembra de ter recebido a newsletter diária dos segredos.

Aqueles tipos que andaram a maltratar as crianças da Casa Pia, também diziam que não se lembravam das orgias na Casa de Elvas, não era?
Varreu-se-lhes!

Eu agora tenho é que ir ali vomitar.

Samba Noir

(isto é muito bom. mesmo.)

quando ela dança no espaço meu corpo perde o cansaço meu lábio treme o sorriso.
quando ela troca de passo meu peito perde o compasso meus olhos sabem onde ir
saiu, do tempo saiu
caiu, meu samba caiu
quando ela diz que não diz quando ela finge ser minha quase me deixo levar
quando ela quer mais um trago quando ela troca meu copo eu vejo a vida passar
saiu, do tempo saiu
caiu, meu samba caiu
eu respeito a decisão ela sabe o que ela quer eu não quero discussão ela sabe o que ela quer de mim..
de mim… de mim…
ela sabe o que ela quer
quando ela sobe me salvo desce do muro de asfalto eu deixo um samba no ar
na madrugada me enrola cantarolando cartola na mesa de um outro bar
saiu, do tempo saiu
caiu, meu samba caiu
eu respeito a decisão ela sabe o que ela quer eu não quero discussão ela sabe o que ela quer de mim…
de mim… de mim…
ela sabe o que ela quer

João Ricardo Pedro

O que gostei de ouvir nas Notícias? Do que disse o João Ricardo Pedro a agradecer o prémio Leya que lhe foi atribuído e do pequeno excerto às palavras de Manuel Alegre, presidente do júri do referido prémio.

Que belissímas palavras! (aqui, a partir do segundo 40)

(…) à minha mulher, que apesar de toda a sua formação académica em economia, nunca aumentou os juros em função do risco, nunca temeu o incumprimento, jamais impôs austeridades (…)

(…) existem neste momento tantos desempregados em Portugal que a probabilidade de um deles ganhar o prémio Leya era bastante elevada (…)

Contraluz

Há dias em que ando o tempo todo a matutar numa pessoa. Nunca é uma pessoa qualquer, é sempre daquelas pessoas que desaparecem da minha vida, desapareceram melhor dito e o tempo correcto, até porque em nenhuma delas vislumbro hipóteses de volta. Mas não sei bem porque é que isto me acontece, acordo, arranjo-me e muitas vezes é quando estou debruçada sobre o lavatório encastrado na pedra mármore, enquanto desenho um risco azul a debruar-me os olhos, que estão mais pequenos, menos vivos e quase sem pestanas, me vem à memória essa pessoa. Click, acende-se uma luz, ilumina-se uma das muitas caixas escuras da minha vida, e de soslaio olho uma cabeça com pescoço que me olha viva com o semblante de sempre. De sempre na minha lembrança, porque uma pessoa toma todas as cores no rosto e se a conhecermos melhor, sabemos que faz todas as expressões possíveis com os trejeitos da boca, dos olhos, das maçãs do rosto, das rugas da testa, das mãos pela cara, do formato do cabelo, do descair da cabeça enquanto fala e das tonalidades da voz. Guardo escrupulosamente para todas estas pessoas que desapareceram a última cara com que as vi, não sendo esta, no entanto, que me olha quando a luz de camarim da sua caixa preta se acende. Penso que a minha memória funciona um bocadinho como  o Facebook, dando-me fotografias do perfil dos meus ‘mortos’, fazendo sobressair aquelas que se associam aos principais marcos da minha relação com eles.

Bem, mas a verdade é que quando me olho muito perto do espelho, quando estou naquele equilíbrio de um só pé a desenhar o olho, que a minha consciência choca com o espelhado e lá vem um fantasma o dia todo comigo. Normalmente revejo o seu desaparecimento, as razões, culpo-me pelas razões que se fosse hoje tudo seria diferente. Por momentos afasto-o do pensamento tal animal peganhento, chato, depois com a música do carro ele volta, senta-se ao meu lado e eu conduzo e é quando começo a achar que realmente tive uma certa razão em dizer o que disse e fazer o que fiz, caramba, eu tento ser uma pessoa razoável, respeitadora, eu, com aspectozinho tão equilibrado. Louca? Sim, sim, e sim, impossível ser boa da cabeça com as taras todas que eu tenho das sete vidas que já vivi. Mas que estupidez o que estou aqui a escrever, mais quais taras? Mas quem és tu mais do que as outras vidas, essas sim, de gato vira-latas? Tem mas é juizinho menina!

E ando nisto, neste baloiço que me enjoa, para cá e para lá em questões existencialistas.

Mas o dia continua, e o figurão lá vai populando as minhas recordações – foi tão divertido o tempo que passámos juntos e parecíamos tão deliciosamente compinchas nas opiniões. E depois? Se se foi embora é porque tinha de ser, é porque não te merecia ora essa? Tomara haver muitas como tu! A cabra não se cala e na verdade bem sei o que ganhei – uma caixa escura, com uma cabeça decepada, rosto esculpido na cera das minhas lembranças, com uma lâmpada de camarim e respectivo interruptor. Que grande coisa! Uma box, consigo transportá-la à mão até,  aliás fui eu que a arrumei na devida dispensa e prateleira como boa coleccionadora que sou.

Eu nestes dias não acho graça nenhuma.

(hoje esqueci-me das passwords dos portáteis para a formação, a empregada ligou-me a dizer que a chave dela não abria a porta, tentei ligar para o emprego à busca das passwords e ninguém me atendeu, o único número de telemóvel que tinha, o tipo estava de férias, os meus filhos não puderam safar a chave e a porta à empregada porque estavam nas aulas, o parquímetro estava avariado e levei a manhã toda com angústia de carro bloqueado, choveu, não ouvi parte do curso de manhã a pensar que teria de vir a casa ver da porta, de outro portátil e do carro bloqueado, não tomei café-café, perdi o almoço no hotel que era bom, a chave funcionava e percebi que a mulher-a-dias é estúpida que nem uma porta, choveu mais, encharquei-me à procura de outro parquímetro e o grandessíssimo estupor atormentou-me o tempo todo.

eu nestes dias não acho graça nenhuma.)