Vermelho

Há papoilas na horta…

mais

Papoilas! Descerrai essas boccas vermelhas!
Apagai-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel…

(António Nobre)

No dia em que os amigos e os amigos do protocolo se despediram de Miguel Portas, lembrei-me do que escrevi sobre a polémica do homem ter sido apanhado a dormir num avião em classe executiva. Alguns dos mesmos que hoje disseram que sempre o estimaram e a mesma comunicação social que hoje se mostrou tão condoída, cometeram há bem pouco tempo esta alarvidade.

Prece

Meu amor adeus tem cuidado, se a dor é um espinho, que espeta sozinho do outro lado? Meu bem desvairado, tão aflito, se a dor é um dó que desfaz o nó e desata um grito, um mau olhado, um mal pecado.
E a saudade? É uma espera, é uma aflição, se é Primavera é um fim de Outono um tempo morno é quase Verão, em pleno Inverno.

É um abandono!

Porque não me vês maresia? Se a dor é um ciúme que espalha um perfume que me agonia? Vem-me ver amor de mansinho, se a dor é um mar, louco a transbordar noutro caminho, quase a espraiar, quase a afundar.

E a saudade? É uma espera, é uma aflição, se é Primavera é um fim de Outono um tempo morno é quase Verão, em pleno Inverno.

É um abandono!

(eu era mulher pra recitar isto na maresia da praia da Adraga. Lá longe…)

24 de Abril de 2012

Manifesto da Associação 25 de Abril

Há 38 anos, os Militares de Abril pegaram em armas para libertar o Povo da ditadura e da opressão e criar condições para a superação da crise que então se vivia.
Fizeram-no na convicta certeza de que assumiam o papel que os Portugueses esperavam de si.
Cumpridos os compromissos assumidos e finda a sua intervenção directa nos assuntos políticos da nação, a esmagadora maioria integrou-se na Associação 25 de Abril, dela fazendo depositária primeira do seu espírito libertador.
Hoje, não abdicando da nossa condição de cidadãos livres, conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe, sentimos o dever de tomar uma posição cívica e política no quadro da Constituição da República Portuguesa, face à actual crise nacional.
A nossa ética e a moral que muito prezamos, assim no-lo impõem!
Fazemo-lo como cidadãos de corpo inteiro, integrados na associação cívica e cultural que fundámos e que, felizmente, seguiu o seu caminho de integração plena na sociedade portuguesa.
Porque consideramos que:
- Portugal não tem sido respeitado entre iguais, na construção institucional comum, a União Europeia.
- Portugal é tratado com arrogância por poderes externos, o que os nossos governantes aceitam sem protesto e com a auto-satisfação dos subservientes. – O nosso estatuto real é hoje o de um “protectorado”, com dirigentes sem capacidade autónoma de decisão nos nossos destinos.
- O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder. As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem-estar social atingem a dignidade da pessoa humana.
- Sem uma justiça capaz, com dirigentes políticos para quem a ética é palavra vã, Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais.
- O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho.
Entendemos ser oportuno tomar uma posição clara contra a iniquidade, o medo e o conformismo que se estão a instalar na nossa sociedade e proclamar bem alto, perante os Portugueses, que:
- A linha política seguida pelo actual poder político deixou de reflectir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril configurado na Constituição da República Portuguesa;
- O poder político que actualmente governa Portugal, configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores;
Em conformidade, a A25A anuncia que:
- Não participará nos actos oficiais nacionais evocativos do 38.º aniversário do 25 de Abril;
- Participará nas Comemorações Populares e outros actos locais de celebração do 25 de Abril;
- Continuará a evocar e a comemorar o 25 de Abril numa perspectiva de festa pela acção libertadora e numa perspectiva de luta pela realização dos seus ideais, tendo em consideração a autonomia de decisão e escolha dos cidadãos, nas suas múltiplas expressões.
Porque continuamos a acreditar na democracia, porque continuamos a considerar que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia, esclarecemos que a nossa atitude não visa as Instituições de soberania democráticas, não pretendendo confundi-las com os que são seus titulares e exercem o poder.
Também por isso, a Associação 25 de Abril e, especificamente, os Militares de Abril, proclamam que, hoje como ontem, não pretendem assumir qualquer protagonismo político, que só cabe ao Povo português na sua diversidade e múltiplas formas de expressão.
Nesse mesmo sentido, declaramos ter plena consciência da importância da instituição militar, como recurso derradeiro nas encruzilhadas decisivas da História do nosso Portugal. Por isso, declaramos a nossa confiança em que a mesma saberá manter-se firme, em defesa do seu País e do seu Povo. Por isso, aqui manifestamos também o nosso respeito pela instituição militar e o nosso empenhamento pela sua dignificação e prestígio público da sua missão patriótica.
Neste momento difícil para Portugal, queremos, pois:

1. Reafirmar a nossa convicção quanto à vitória futura, mesmo que sofrida, dos valores de Abril no quadro de uma alternativa política, económica, social e cultural que corresponda aos anseios profundos do Povo português e à consolidação e perenidade da Pátria portuguesa.
2. Apelar ao Povo português e a todas as suas expressões organizadas para que se mobilizem e ajam, em unidade patriótica, para salvar Portugal, a liberdade, a democracia.

Viva Portugal!

Time to talk

We’ll never have to be alone, it likes, beeing alone feels a problem that needs to be solved.

The feeling that ‘no one is listening to me’ make us want to spend time with machines that seem to care about us.

Esta senhora fala disto com muita propriedade, o tema toca-nos a todos. Na minha casa há um excesso de telemóveis, consolas e portáteis per capita e eu tenho a ideia de que conversamos. Ou não? Também escrevemos muitos sms’s, mesmo quando estamos à mesa, mas eu acho que conversamos. Ou não?
É de ouvir a Sherry Turkle, ela diz coisas mesmo muito importantes.

Sherry Turkle: Connected, but alone?

Love your friends, love your body, love your life.

Noventa e oito por cento

- Dê-me 1 bilhete para o filme que comece mais tarde da sessão da noite por favor?
- É o das 21h50 na sala 3.
- Ok, pode ser.
- Tem algum cartão para descontos?
- Cartão?
- Sim: ACP, GALP, Circulo de Leitores, MasterCard?
(abro a carteira e mostro tudo)
- Pois, não me parece que tenha nada.
- Quanto é, então?
- €6,50
- Desculpe, como se chama o filme?
- Assim, assim.
- Obrigada

Corri pelo centro comercial à procura de uma sanduíche portável e alguma coisa para beber. Comprei uma naquela coisa caríssima que diz que é tudo natural, mais uma garrafa mínima de sumo de laranja-cenoura biológico, num total de €6,75. – Foda-se, como é caro! – Resmunguei enquanto amachucava os invólucros para dentro da mala. Em passada larga e a desejar que o filme tivesse quilos de publicidade a antecede-lo, atendi um telefonema do António para me chatear, ultimamente é tudo para me chatear, que não anda bem, que está a sofrer e dedica-se a moer-me o juízo por tudo e por nada. Digo-lhe que não levo a mal que compreendo tudo, desligo o telemóvel a pensar como raio isto entre nós se andará a sustentar, encasqueto que sou eu que teimosamente alimento uma planta morta e sinto uma picada aguda no estômago. Corro. Entro às escuras. Fila 3, que se lixe. Escorrego pela cadeira, abro o celofane da sanduíche. Abocanho-a com um gole de sumo enquanto dou conta que o Assim, assim é um filme português.

Assim, assim, são histórias urbanas com pessoas por Lisboa – relações, encontros, mentiras, palavras, enganos, rotinas, tentativas, mudanças, viveres juntos-versus-viveres separados, casamento, às vezes sexo, amor?, homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, decepção mas sobretudo do fingimento.
Assim, assim é nocturno, as personagens pairam pelo meu lugar fetiche da noite em Lisboa – Braço de Prata. Que bom gosto. Tem o Ivo Canelas, a Rita Blanco, a Margarida Carpinteiro, o Albano Jerónimo, a Ana Brandão, o Gonçalo Waddington, a Isabel Abreu, a Joana Santos, o Miguel Guilherme, o Nuno Lopes e o Pedro Lacerda, e todos eles vão muito bem, porque ficaram exactamente iguais a nós, dizem o mesmo que nós dizemos, sentem as mesmas confusões e tal como nós, ficam indecisos e deixam andar.

Que bela surpresa tive esta noite. Quem disse que não se deve arriscar?

Trip

Dor

Passa-se um dia e outro dia
À espera que passe a Dor,
E a Dor não passa, e porfia,
Porque trás dia, outro dia
Que traz Dor inda maior;


Porque embora a Dor aflita
Calasse há muito seus ais,
Ainda, fundo, palpita
Uma outra Dor que não grita:
A Dor do que não dói mais.

(Francisco Bugalho)

Rescue.me

I’ll come to your emotional rescue
I’ll come to your emotional rescue

(A Isabelinha Cocó Stilwell por acaso foi buscar um bom tema e isto é qualquer coisa que me persegue nos meus 25 anos de trabalho – o estar em empresas onde a vida parece começar às 5h00 da tarde. É às cinco da tarde que te vêm falar daquele assunto que esperaste todo o dia, é às cinco da tarde que o teu superior se lembra de discutir a preparação da reunião do dia seguinte, é às cinco da tarde que chega um mail a reportar um erro que impede um trabalho que tem de ser precisamente hoje, despachado. Também tenho uma certa sina com as vésperas de Natal, há sempre um bom motivo que me impede de fazer as rabanadas com calma ou ter ainda pachorra para amassar um bolo-rei. Os meus superiores servem-se das cinco da tarde como se fossem nove horas da manhã e ninguém diz nada, encarreiramos na rotina do abuso e toca a andar. Sair do emprego à noite é normal nas empresas nacionais, daí comentarmos com espanto e imensas vezes em conversas de café, porque raio nos acusarão de falta de produtividade!?
Realmente é perfeitamente indecente usar-se a expressão, ‘baixa produtividade’, indiscriminadamente às funções, profissões, situações, praticadas nas variadíssimas actividades económicas do país e aquele argumento de que chegamos tarde ao emprego e por isso precisamos de mais horas ao fim do dia é uma perfeita falácia. Por norma, aqui chega-se cedo e sai-se tarde, a vida pessoal fica sempre para segundo plano e raramente alguma mãe ou pai dá um passeio com o bebé à luz do dia de fim de tarde, o que acontece é arrancá-lo da ama já o céu está escuro. De uma maneira geral e pela experiência de me ter já cruzado profissionalmente com muita gente, considero-nos pessoas esforçadas, trabalhadoras, solícitas para que, com relativa facilidade a entidade patronal, consiga a prestação de mais horas de trabalho sem pagamento adicional.
O que falha para que o rótulo nos seja insistentemente colado? Em que tipo de funções falha? Será um problema geracional? Nunca vi ninguém muito preocupado em escalpelizar o assunto, é muito mais fácil generalizar.

Mas isto foi tudo para dizer que o Emotional Rescue é fabuloso, e que tinha saudades de o ouvir e que precisava urgentemente de um Rescue Emocional, não sei se alguém sabe onde se vende…?)

Wook

Cozinho no Wook como uma japonesa. Azeite e legumes a fritar, salteio-os, baqueio o Wook com destreza, saltam-me cores aos olhos e o azeite quente estremece, atiro-lhe temperos como pedras ao charco, agito a caçarola, salgo a mistura, junto um dedo de molho de soja, limão, brilham os verdes, laranjas, brancos pérola, o estrugido regurgita, o segredo está em nunca deixar adormecer a mistura, mantê-la num rebuliço infernal e quando por fim satisfeita, junte-se-lhe então o conduto na calmaria de uma breve cozedura nos sucos licorosos dos legumes desidratados.
Eu e o Wook temos uma boa relação, tomara eu serem-me as outras todas assim!

(os verdes e laranjas são da horta, claro)

Toilet

Ela está tão só mas tão só, que o seu momento mágico é enfiar-se debaixo do duche quente, para o barulho da água a fazer lembrar gente e na pele sentir gotas de carinho.

***

Beta ajuda o marido a montar antenas, passar cabos, verificar o sinal. Beta é gorducha, bem torneada, mas desembaraça um baraço de cabo num instante, distingue a tomada macho da fêmea, obedece às chamadas urgentes do marido que lhe dá ordens do cimo dum telhado, do alto de um escadote e segue o sinal com um aparelho sofisticado escada acima, escada abaixo. Beta usa um colete de trabalho igual ao do homem, com muitos bolsos, fechos e botões, enche-os de fitas, tomadas, pontas, alicates, porcas, que a fazem parecer mais cheia, inchada, homenzarrão. Usa uma lâmpada pregada na testa com fita à volta da cabeça, mineira de cabelo sujo, desgrenhado, talvez oleoso.
Achei graça que, Beta só ficou mulher quando me pediu licença para ir à casa de banho porque precisava de mudar o penso. E tirou de um dos múltiplos bolsos do colete, uma higiénica compressa intima.

Delícia

Vai no cabeleireiro
No esteticista
Malha o dia inteiro
Pinta de artista

Saca dinheiro
Vai de motorista
Com seu carro esporte
Vai zoar na pista

Final de semana
Na casa de praia
Só gastando grana
Na maior gandaia
Vai pra balada
Dança bate estaca
Com a sua tribo
Até de madrugada

Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Só no filé
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Tem o que quer
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Um croissant
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
Suquinho de maçã
Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha

Cordão umbilical

M. A. C.

Maternidade Drº Alfredo da Costa

Manuel Vicente Alfredo da Costa, nasceu em Margão, Índia Portuguesa, no dia 28 de Fevereiro de 1859. Era filho de Bernardo Francisco da Costa. Aos 9 anos vem para Portugal com os seus pais.
Termina em 1884, de forma brilhante, a sua carreira académica. No ano seguinte é nomeado Cirurgião do Banco do Hospital de São José. Em 1887 passa a exercer docência na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, como Demonstrador de Cirurgia.
Em 1889, passa a lente substituto de Cirurgia. Em 1897 sucede ao seu antigo professor, Abílio Mascarenhas, como lente de Obstectrícia.
Devem-se ao professor Alfredo da Costa as primeiras colecistectomias e a operação de Estlander em Portugal, bem como a introdução do método de Volkman na cura do hidrocelo.
Foi um dos fundadores da “Revista de Medicina e Cirurgia” e colaborou no “Jornal da Sociedade das Ciências Médicas”.
Como um dos colaboradores da Rainha D. Amélia, presidiu à Comissão Técnica de Assistência Nacional aos Tuberculosos. Pertenceu à Academia das Ciências e à Sociedade das Ciências Médicas, da qual viria a ser seu presidente em 1905 e 1906.
Faleceu em 2 de Abril de 1910, sem ter visto realizado o seu grande sonho – a construção de uma Maternidade.

Pari dois filhos perfeitos na Maternidade Alfredo da Costa e sou contra o seu fecho pelo governo de abortos que lidera actualmente o meu país!

c o n t r a r i e d a d e s

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.


(prédios da Praça Paiva Couceiro – Lisboa)

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Contrariedades de Cesário Verde

TABU

Sim, fui ver o TABU. Prós lados da Av. de Roma ao King, igualmente a zona onde vive a Pilar, a Santa e a Aurora, e foi também ao King que, a Pilar e o eterno apaixonado pintor foram ao cinema num 31 de Dezembro qualquer de noite chuvosa e solitária.
TABU é grandioso e belo como um imenso campo de algodão africano em flor, paisagem recorrente no filme que nos lembra a riqueza infinita que foi nossa e nos expõe com firmeza à deplorável pobreza corrente. Se O Meu Querido Mês de Agosto, me trouxe de volta à terra da minha Mãe, a minha terra adoptiva, a minha Quinta, a minha infância, à procissão de São Paio de Gramaços, aos INOX que tocavam nas Festas do Bombeiros onde dancei o meu primeiro slow, TABU levou-me à África do meu Pai, ao seu abalar forçado de Coimbra depois do 1º ano de Medicina completo com o aviso paternal de que não havia dinheiro para continuar e não fez a coisa por menos, meteu-se num barco em Lisboa com quase nada no bolso e partiu para Angola no ano de 1954. Dez anos depois eu nasci.
É precisamente entre 50 e 60 que se passa a 2ª parte da história de TABU, em Moçambique, a vida de fazenda no interior, na savana, um rancho de criados pretos para servir, os poucos brancos existentes conheciam-se todos, faziam caçadas, patuscadas, divertiam-se como em família. Aurora conheceu Gianluca assim, num grupo dos que viviam perto naquele mar de distâncias e porque o crocodilo teimava em se passear pela casa dele. O meu Pai fez-se caçador de impalas e pacaças, às vezes também traziam javalis ou uma girafa. Vestia calções e camisa caqui de explorador e usava o típico chapéu de caçador africano, nas fotografias está sempre de mãos nos quadris a sorrir junto das peças de caça mortas. Há sempre pretos magros e esfarrapados que sorriem às máquinas fotográficas com catanas na mão que serviam para desbravar o terreno na savana e fazer o trabalho pesado. Aurora era uma caçadora exímia mas engravidou do marido e um dia falhou um tiro que se tornou em mau presságio para o resto da vida que tinha de viver. Aurora e Gianluca, tornaram-se amantes. Por todo o filme ser narrado, pois é assim que se conta uma história, o amor deles faz-nos chorar e as cartas trocadas, narrativas antigas, são enternecedoras. O meu pai deve ter conhecido algumas mulheres em África colonial sem guerra, não sabia ainda da minha mãe, era solteiro, jovem, moreno, tem muitas fotografias sentado num murete do alpendre de uma casa, vestido de calças e camisa brancas e de copo de gin com água tónica, gelo e limão, na mão. São fotografias de festa, onde também estão raparigas de vestidinhos cintados, claros, e lábios carregados de baton. São retratos a preto e branco tal como o filme, o Miguel Gomes deve ter visto as fotografias do meu Pai.

Adorei o filme, a história, a música, a mestria dos pormenores, embora comece a achar demasiadas coincidências nas recordações e no imaginário do Miguel. Parece que pisou o meu chão.
Nunca fui a África mas esta noite estive lá.

(mais)

Plano de férias

Praia da Falésia, Albufeira - Algarve 2011

Puseram-me o plano de férias à frente para marcar os dias e apeteceu-me chorar. Ando assim, recebo o ordenado e apetece-me chorar, vou de manhã para o emprego, sento-me à secretária e tenho um momento de ranger de dentes, quando desço ao refeitório pró almocito engulo com dificuldade, ao fim de dia com o estaminé arrumado volta-me a lágrima ao olho e hoje, com esta do plano de férias, fui-me completamente abaixo.

- eh pá não é isso, não tenho depressão nenhuma, gosto imenso do sítio onde estou, dos companheiros de jornada e continuo com imenso prazer em exercer bem a minha profissão, não é nada disso. são os desempregados pá, é a precariedade do trabalho e das vidas que me rodeiam, é saber que já vamos em 15% de taxa de desemprego e pensar nos milhares de famílias afectadas e que estão a passar mal. e os miúdos pá?

Tenho que o entregar até amanhã, o plano de férias, veja-se. Só a expressão, ‘plano de férias’ me causa arrepios, parece nós que estamos nos anos 90 em que fazíamos uma semana num Club Méditerranée com os amigos e muitas crianças à volta e a seguir ainda se ia uma semana até ao Alentejo, pra comer, rezar e amar e regressava-se aos empregos com bom aspecto de roupa nova e uma sandaloca de tiras da Pablo Fuster e dali a pouco era Novembro, recebíamos o subsidio de Natal e no fim do ano tiravam-se mais uns dias para ir até à neve, luxo europeu já tão português.
Já repararam que as palavras, plano_de_férias, planos_para_as_férias, férias, planos, são hoje, fruto da imbecilidade dos tempos em que vivemos, pura pornografia?

O Verdadeiro Artista

O Verdadeiro Artista é aquele que consegue fazer muitas mais proezas do que o Cristiano Ronaldo. Quem sabe, sabe.

Fed multa BES devido à venda de produtos sem licença

A Reserva Federal norte-americana (Fed) multou em 732 mil euros o BES, devido à venda de produtos sem licença, os quais vai deixar de comercializar nos Estados Unidos.
De acordo com a Fed, o BES aceitou pagar esta quantia e deixar de comercializar os produtos em causa nas filiais em que os disponibilizava até 15 de setembro deste ano.
Contactada pela agência Lusa, fonte do BES explicou que, quando detetou irregularidades, «o banco voluntariamente foi ter com as autoridades para explicar uma situação que detetou internamente», sublinhando que «não é nenhuma fraude nem nenhuma situação fraudulenta».
A mesma fonte esclareceu que, «no âmbito do acordo agora estabelecido, o banco compromete-se a deixar de comercializar aqueles produtos de poupança», que são tradicionais em Portugal e na Europa, mas que, nos Estados Unidos, só podem ser comercializados por bancos norte-americanos, uma situação que o BES reportou às entidades competentes.
A sanção surge depois de no ano passado a Comissão do Mercado de Valores norte-americana ter aplicado ao BES o pagamento de sete milhões de dólares pela venda de valores a 3.800 investidores, entre 2004 e 2009, sem deter licença para este tipo de operações nos Estados Unidos.

(tirei daqui)