O Crato Conceito EsCola

A educação serve para ajudar o aluno a funcionar sem certeza, num mundo de mudanças constantes e ambiguidades que confundem.
(Dewey)

  • Sem Área Projecto
  • Sem Técnicas de Informática
  • Sem Trabalhos Manuais
  • Sem Estudo Acompanhado
  • e…
  • Sem 2ª língua estrangeira
  • Sem Educação Física
  • Sem Educação Visual
  • Sem Geografia
  • Sem Filosofia
  • Sem História
  • Sem Psicologia
  • Sem Português
  • Sem Inglês
  • Sem Economia
  • Sem Química
  • Sem Física
  • Sem Matemática
  • Sem Professores
  • Sem Sala de Aula
  • Sem Escola
  • Sem Alunos

TELE-ESCOLA

FORMAÇÃO À DISTÂNCIA

AUTODIDATA

ANALFABETISMO

E nós, deixamos?

A Terra a quem a trabalha

Fui a leilão e ganhei o terreno. Vou tornar-me numa agricultora urbana, biológica, ecológica, lógica, tecnológica, saudável e extremamente feliz.
Este, vai tornar-se o grande projecto da minha vida a partir de agora e verifico mais uma vez, que a natureza é muito sábia, pois demonstrou-me que só poderia agarrar-me à Terra ao sentir o meu chão tão escorregadio.
E estou a fazer um regresso. Um regresso à quinta da minha infância de sonho. Linda!


(ver mais)

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! Minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância!
Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.

Regresso, Miguel Torga

Esterilidade nacional

Flutuei as pernas em table top, elevei as ancas, pus os braços e pernas em posição de trapézio e executei o down dog, apertei e distendi a cintura pélvica com contracções femininas, enrolei e desenrolei a coluna com segurança abdominal, coloquei-me em posição de lótus, agradeci com um assentimento de cabeça e como sempre, terminámos a aula de Pilates a bater palmas numa franca partilha de bem-estar e prazer.
Hoje cancelei a minha inscrição no ginásio. De toalha ao pescoço, confessei à professora que o ía fazer. Mas porquê? Por contenção de custos, expliquei. Até a Luísa, exclamou. Sim, lá terá de ser.
Deu-me um papel para preencher, nome, motivo da desistência. Desagrado das instalações? Não, que disparate, está tudo limpo e arranjado. Descontentamento com o método de ensino? Claro que não, gosto de vocês, são profissionais. Mudança de local de trabalho? Antes fosse. Dificuldades financeiras? Hesitei. Outros motivos? Sim. Crise na merda do meu país, escrevi.
Eram 44 € mensais, parecia uma ninharia pelo bem que me fazia, alongava e trabalhava o corpo castigado por demasiadas horas sentado num cubículo de 1 metro quadrado. Mas 44 € multiplicados por 10, são 440 € e por 12, são 528 €. É dinheiro, caramba! É o ordenado mensal de muita família portuguesa, que dali comem, bebem, pagam água, luz e gás, o infantário do garoto e com o resto vão comendo aparas de supermercado.
Sentei-me um bocadinho com as professoras que simpaticamente acorreram à recepção para assistir ao meu abandono. Mas com o perdão à Grécia isto não fica melhor? Expliquei-lhes que não, que até piorava para Portugal, que a nossa banca tinha comprado dívida grega e ficava agora depauperada em milhões, daí a expressão recapitalização da banca, ter começado a surgir. Nesse caso, porque é que não nos perdoam a nossa dívida? Queriam saber. Disse-lhes que poderia ser pior, porque a nossa própria banca tinha também comprado dívida portuguesa e mais endividada ficaria, e quando quiséssemos ir ao multibanco levantar dinheiro a caixa estaria seca. Que o ideal seria que nos permitissem pagar num prazo mais longo para que as medidas de austeridade não fossem tão chocantes e devastadoras para todos. E se começamos todos do zero? Exclamava uma, já atormentada pela realidade negra que lhes traçava para o futuro próximo. Concordei que era uma boa ideia mas precisávamos de nos transformar em cartoons e passar para dentro dos quadradinhos de um papel.
Falamos depois de filhos, das despesas com os miúdos, desde a ama até às propinas universitárias. Todas elas andam na casa dos 30, casadas ou juntas, anuíram-me que queriam muito procriar, ter pelo menos um bebé, mas que não conseguiam, os ordenados são baixos, algumas a recibo verde, que talvez para 2013 a coisa estivesse melhor, pelo que tinham ouvido ao Gaspar.
Tive imensa pena delas, tão jovens, com o corpo pronto para dar à luz e a reservarem-se à secura da esterilidade, sem poderem sentir o júbilo de serem mães e eu, que com 32 anos já tinha dois e por mim teria tido um rancho deles.

O que se está a fazer às mulheres? A impedir-lhes que cumpram a natalidade, função que lhes é absolutamente querida, a proporcionar-lhes todas as condições para virem a ter graves problemas psicológicos e sociais motivados pela abstinência forçada à concepção de um filho e a oferecer-lhes o aparecimento prematuro de cancro da mama e cancro dos ovários! O que se está a fazer às mulheres?
O que se está a fazer aos homens? Porque não conseguem poder cumprir o devaneio de serem chamados, Pais?
O que se está a fazer ao país?

Alguém pensa nisto enquanto fazem as contas à dívida?

Em 2015, Portugal terá a 2ª taxa de natalidade mais baixa a nível mundial: 1,3 filhos por mulher. Atrás de nós, parece que estará a Bósnia e Herzegovina.

Tudo isto é demasiadamente triste para ser verdade.

(ver minuto 53, do telejornal da ainda RTP1)

Adeus RTP

“O funcionamento da democracia portuguesa está em causa.”

A ouvir o empresário e experiente Balsemão em contraposição com o sapateirão e bisonho Relvas, transpus-me momentaneamente para a savana e visualizei um animal possante, rei da sua alcateia, um leão já velho e abatido a ser desafiado por uma hiena jovem, um rufia de bairro, desrespeitoso e à procura de guerrilha fácil pela presa alheia.

Os portugueses estarão cientes que quem anda a mexer nas coisas que foram erigidas por todos, que têm História, que lhes são úteis, que são parte do seu património, são pessoas sem escrúpulos e da maior suspeição possível?

“Os Media têm futuro, assim como Portugal tem futuro. Os Media vão continuar a controlar os outros poderes, em nome da democracia”.

Ca Nojo!

Olhem-me este!

Olhem-me este caramelo!
Fizeste-o porque te sentiste pressionado e mai nada, por mérito sabes de quem? Dos bloggers, vistes!?

Ó Miguel Macedo e relativamente aos nossos subsídios de Natal e Férias, eles também não eram um “direito que está previsto na lei há muitos anos”? Quando puder há-de ver se me consegue explicar melhor isto.

O ministro da Administração Interna anunciou hoje que na segunda-feira irá renunciar ao subsídio de alojamento.

“Por decisão pessoal minha, amanhã mesmo, vou formalizar a renúncia a este direito que a lei me dá”, disse Miguel Macedo aos jornalistas.
O governante disse que toma a decisão “por vontade pessoal”, alegando que o direito ao alojamento “está há muito tempo previsto na lei”. “Faço-o por vontade pessoal, porque não quero estar a perder um minuto da minha atenção com uma polémica deste género”, referiu Miguel Macedo.
O ministro da Administração Interna referiu que a questão agora colocada “não é nova, tem muitos anos”, assegurando tratar-se de um direito que está “previsto na lei há muitos anos”. “Não houve nada que estivesse ocultado. Eu vou abdicar de um direito que tenho. Faço-o porque entendo que devo fazê-lo”, referiu.

Ca Nojo!

Outono

Leaves are falling, Leaves are falling, One fell on my toes!

Leaves are falling, Leaves are falling, One fell on my nose!

Leaves are falling, Leaves are falling, One fell on my head!

Leaves are falling, Leaves are falling, Yellow, orange and red!

Os Bruxos

Há reuniões diárias de economistas na televisão. Quando queremos saber o que nos vai acontecer amanhã chama-se um economista. Também são capazes de prever para o mês que vem, para daqui a um ano, ou para a próxima década, mas aí já fazem uma estimativa usando complexos algoritmos de extrapolação de conjecturas e fantasias.
A bem dizer, a presença do economista é como ir à bruxa, nunca lá fui, mas ouço dizer às minhas amigas que ela acerta sempre em qualquer coisa. Bruxo!

Também me dá vontade de lhes chamar treinadores de bancada, porque todos eles enquanto estão ali refastelados a botar faladura sentados a uma mesa num estúdio de televisão, têm soluções geniais para pôr o país num brinquinho em três tempos. Mesmo aqueles que já lá estiveram e não fizeram a ponta de um chavelho, passam para a bancada e tecem considerações magnânimas sobre a estratégia das jogadas. Eles despedem 60000 Funcionários Públicos de uma só vez, eles cortam nas gorduras do Estado que é como quem diz, dispensam pessoas, eles não querem ninguém a ser tratado que não pague, eles fecham Institutos, eles privatizam, eles concordam com o presidente, eles opinam, gesticulam, cansam-me. São pagos para debitar ideias enquanto o programa está no ar e nunca teremos a certeza se, amanhã não dirão a antítese num canal concorrente, mas isso também não interessa nada, cada jogo é um jogo e o futebol é mesmo assim.

Adere ao apagão

Aderi a uma iniciativa no Facebook que promove um apagão nacional contra o aumento da electricidade. É uma belíssima ideia e seria brilhante tratar de pôr o país às escuras, pleonasmo, porque em completa escuridão já ele está.
Vá lá, tudo apagado, fichas retiradas das tomadas e não esqueçam os consumidores leds da box e da televisão.
Amanhã, Sexta-feira às 20h15m.
Transcrevo o texto que prefacia o movimento, Apagão durante pelo menos 5 minutos contra o aumento da electricidade:

No dia 21 de Outubro, às 20:15, vamos todos desligar as luzes, durante pelo menos 5 minutos, em protesto contra o aumento da electricidade em Portugal. Foi noticiado que a ERSE propôs um aumento da electricidade em 2012 de 30%. A este aumento haverá que acrescentar um aumento do IVA sobre a electricidade de 6% para 23%, já no último trimestre deste ano. Assim, quem normalmente paga 100 Euros de Electricidade, em Janeiro pagará cerca de 150 Euros – um aumento de 50%! Embora o aumento de 30% tenha sido posteriormente negado pelo governo, ninguém negou que irão existir aumentos, e o aumento da taxa de IVA é um dado adquirido. Isto, numa altura em que os funcionários públicos tiveram reduções de ordenado, os impostos e os transportes vão aumentar e o 13º mês vai ser cortado para metade. Este novo aumento é incomportável para a maioria das famílias. É um aumento inadmissível. Temos que fazer alguma coisa. Proponho que no dia 21 de Outubro, aniversário da invenção da lâmpada eléctrica incandescente por Thomas Edison, façamos um apagão de protesto. Se todos apagarmos as luzes, às 20:15 em ponto, o efeito vai ser avassalador. Ninguém vai ficar indiferente. Junta-te a este movimento.
Se os deixarmos, acabarão por apagar a luz ao fundo do túnel.

Não se macem que não é preciso

Este recado é para os Continentes e Pingos Doces da nossa vida e tão perto de nós:

Parem de divulgar o Natal como já o andam a fazer, mostrar cabazes com comida, vinhaça, e abastança. Não se lembrem de fazer publicidades com criancinhas alegres, bem vestidas, bem calçadas, louras e de olhos azuis, junto da Popota ou daquela avestruz amarela sem graça nenhuma. Não inventem campanhas nataleiras com CD’s de artistas unidos a cantar e vendidos depois a 1€, a reverter para as Santas Casas do país, porque nós já não acreditamos em nada e vemos sempre o Sô Engenheiro e Sô Zé Alexandre nos tops da riqueza nacional. Não enfeitem as lojas com fitas e luzinhas porque não vamos olhar para elas, não usem os cor-de-rosas e os vermelhos vivo junto das prateleiras dos brinquedos a clamar pelas crianças, porque bem sabem que nada lhes podemos dar.
Não toquem a Noite Feliz no vosso sistema de som, nem mandem vir o Pai Natal, ele este ano não vai fazer cá falta nenhuma.

Tenham decência, sejam discretos, façam-nos crer que se esqueceram do Natal e nós assim até agradecemos.

Obrigada.

Alcoolismo e outras raivas

O Sôr Primeiro Ministro, tão atarefado anda para encontrar formas rápidas de juntar dinheiro em cima da mesa de jogo do casino governamental, para poder pagar aos polícias, aos enfermeiros, aos juízes, aos funcionários da câmara e aos professores, que não tem dado conta como é que o povo cá fora se anda a amanhar no gamanço mas principalmente como é que certo povinho anda a dar asas às suas frustrações e enraivecido pega em caçadeiras, machados ou panelas e faz da mulher e dos filhos alvo de bordoada.
Os casos de violência doméstica sobre as mulheres e consequentemente sobre os filhos têm-se multiplicado nas notícias dos jornais. O aparecimento de bebés abandonados ou mortos tem sido ultimamente, uma notícia assustadora e frequente. Os relatos de abusos sexuais a menores pelos próprios familiares abundam, e todos temos a certeza que existirá um doloroso número de outras situações encobertas.
Este país tem um gravíssimo problema de alcoolismo que nunca tratou, nem enfrentou, nem nunca quis saber, tendo inclusivamente este bondoso Governo terminado com o Instituto da Droga e Toxicodependência, o que, associado agora à problemática do desemprego, da desocupação, da falta de dinheiro e sequente deterioração social das famílias, está a criar verdadeiras bombas-relógio nas nossas casas, nas dos nossos vizinhos, nas dos nossos amigos, conhecidos e por aí.
O Sôr Primeiro Ministro, tem tanta gente desempregada e prepara-se para desempregar mais 100.000, seja com as privatizações que vão acontecer, seja com as rescisões forçadas que igualmente fará, pegue em grupos de psicólogos, assistentes sociais, dinamizadores culturais, médicos e enfermeiros e ponha-os a apoiar as pessoas, o povo do seu país, e sobretudo peça-lhes que intervenham de modo a impedir que aconteçam mais mortes de mulheres e crianças, que são precisamente essas que lhe renovarão a população velha e doentia que governa, benesse que lhe foi dada por uns tantos.

Estou farta de o ouvir falar eloquentemente de números, competência que dificilmente lhe reconheço, pense nas pessoas, humanize-se, ajude os desempregados e os inocentes. Quanto aos facínoras, seja firme como o é com as medidas troikianas, meta-os na cadeia.

(mais informações)

Os grandes substantivos abstractos

O António foi à médica de família ao Centro de Saúde. Levou as análises, os registos da tensão e o relatório do exame à próstata. Contou-me que a médica nunca olhou para ele enquanto esteve os dez minutos sentado na cadeira e que mal ligou à papelada que levava. Questionei-o sobre tamanho alheamento ao que me respondeu que a senhora não reparou nele porque esteve sempre a escrever ao teclado do computador, precisamente o que se estava a passar na consulta.
Expliquei-lhe que nas formas mais modernas da assistência médica, o doente nem precisa sair de casa, o médico visualiza os exames que lhe chegam via internet, fala com o doente via webcam e faz-lhe o envio da receita por mail.
Olhámo-nos com os rostos depressivos com que andamos e perguntámo-nos, onde raio nos poderão pôr o ship com que nos querem fazer OFF?

Ao chegar à tardinha encontrei o meu Pai na rua, ainda com o saco do Expresso de Sábado pendurado pela mão, naquelas voltas que os velhos dão para mexer as pernas e justificar ao tempo afazeres inventados. O meu Pai que tem 83 anos, que nasceu numa aldeia pequenina e recôndita da Beira Alta, que foi progredindo nos estudos com a ajuda de um tio professor que lhe reconheceu inteligência e capacidades para mais do que cavar a terra, que entrou em Medicina na Universidade de Coimbra no ano de 1949 e que depois de um primeiro ano limpo recebeu uma carta dos pais, dando-lhe ordem para abandonar os estudos por não haver dinheiro para o manter, agarrou-me hoje as mãos, e de lágrimas nos olhos, pediu-me para deixar partir os netos, os meus filhos, para o Canadá ou Austrália para acabarem os estudos e procurarem uma vida melhor.

Jantei ao som pausado e insolente, dissimulado em salamaleques e cortesias educadas, da personificação do intolerável, do inaceitável, do inadmissível, mas recusável. Desliguei o aparelho no final. Lembrei-me de rever o António, o Lobo Antunes, recordei a sua interpelação no outro dia: Qual é o sentido da vida?

(esta conversa, este capítulo falado, teria forçosamente de ficar gravado no meu blog, aqui )

O Funcionário Público

Esta gentinha que anda por aí com a língua afiada, pronta a criticar a existência dos funcionários públicos como se eles fossem uma praga a eliminar ou mesmo a Treponema Pallidum, precisa perceber de uma vez por todas a razão dos empregos estatais terem florescido e ser o Estado Português o maior empregador do país.
Façam o favor de ler.

Um: desde os primórdios da criação do Condado Portucalense, sempre fomos pobres;

Dois: a expansão para sul, com o pretexto de libertação dos sarracenos, tinha na verdade o objectivo de obtenção de mais terras para cultivo e consequentemente o crescimento do território;

Três: os descobrimentos vêm no seguimento do ponto dois, a pobreza grassava e haviam de se encontrar soluções alternativas;

Quatro: a queda da monarquia, novamente com o país desequilibradíssimo em termos de distribuição de riqueza, foi também um pretexto para sacar umas massas para alargar a base de consumo;

Cinco: a participação na 1ª Guerra Mundial tem como propósito manter o império português = mercado proteccionista, controlado pelo Estado;

Seis: a emigração em massa do início do séc. XX foi a maneira de minorar o empobrecimento do país;

Sete: a não participação na 2ª Guerra Mundial serviu para uns tantos encherem os bolsos com a venda de tungsténio para os dois lados e o Estado aferrolhar uns dinheiros com a venda de ouro e da Base das Lajes;

Oito: a emigração em massa no início dos anos 60 pela inexistência de emprego, e a guerra colonial com intenção de manter o mercado do ‘mar lusitano’ = mercado proteccionista controlado pelo Estado;

Nove: a entrada na CEE, foi quando se arrecadaram uns bons subsídios gastos ao desbarato, se promoveram as políticas de abate da nossa agricultura e pescas para entrada facilitada dos produtos estrangeiros e se promoveu a saída de povinho sem visto;

Dez: nunca fomos auto-suficientes em alimentos;

Onze: um país pobre tem sempre muitos funcionários públicos e empresas maiores em monopólio que subsistem em compadrio com o Estado;

Doze: os funcionários públicos só se tornaram funcionários públicos porque historicamente Portugal sempre teve uma estrutura de emprego estatal e paternalista.

Porquê? Porque somos pobres.

Os funcionários públicos não são aquele gajo lambão que de vez em quando nos salta ao balcão da repartição de finanças que coça o rabo duas vezes antes de pôr o carimbo num papel. Os funcionários públicos são os professores das escolas dos nossos filhos, são as auxiliares, enfermeiros e médicos dos hospitais, são os juízes nos tribunais, mas são também os químicos, os físicos, os matemáticos, os biólogos e os engenheiros que trabalham nos institutos técnicos e nos laboratórios, estruturas inexistentes ou existentes em número manifestamente insuficiente, no mercado de trabalho privado.

Os funcionários públicos só o são, para não serem desempregados. E é por isso que este Estado não tem qualquer direito de sangrar o funcionalismo público como o está a fazer, porque foi desde sempre o Estado que o acarinhou da pior maneira: como um pai possessivo do seu filho.

Estamos entendidos?

Estais cegos

Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.

Padre António Vieira, in “Sermões”

No limbo da estupidez

Os senhores é que deixaram um cenário dantesco para Portugal, que nos obrigam a fazer um esforço tremendo para conseguirmos manter a equidade, justiça e qualidade no acesso aos cuidados de saúde.

(tradução da intervenção de Teresa Caeiro do CDS a propósito da discussão dos cortes propostos pelo Ministro da Saúde, ontem dia 12 Outubro – aqui)

Esganiçada a fazer esta afirmação sem contudo manifestar qualquer convicção, olhei-a de soslaio enquanto depenicava um bocadinho de frango assado ao jantar, e pensei prós meus botões:

Saberá esta sirigaita o que é a falta de saúde?

Saberá esta jovem como são os rostos dos doentes espalhados pelos corredores do hospital, deitados em macas, vestidos com pijamas hospitalares monogramados, enquanto aguardam horas sem fim, para fazer um RX?

Saberá esta badameca como são as enfermarias do Curry Cabral, com 8 filas de 10 camas fazendo lembrar as carteiras numa sala de aula, de onde se avistam vultos mórbidos e entorpecidos?

Saberá esta fedelha como estão acamados os doentes cancerosos no Hospital dos Capuchos, lado a lado, quer estejam à beira da morte, quer estejam numa luta corajosa pela vida, que se olham enquanto lhes caiem os cabelos, e que apenas são separados dos estertores da morte uns dos outros, por uma cortina de plástico branco?

Saberá esta mulherzinha o que é entrar na ala oncológica do Hospital de Santa Maria, onde estão dezenas e dezenas de doentes à espera de consultas e exames, pálidos, carecas, esqueléticos, com reflexos azulados da radioterapia ou com hálitos acidificados da quimioterapia?

Saberá esta toleirona como é tirar a senha de vez numa farmácia hospitalar de um dos nossos hospitais centrais, quando faltam 70 números para o nosso, olharmos à nossa volta e vermos os pobres mais pobres da nossa sociedade, os doentes de SIDA, os mutilados, os alcoólicos, os drogados e os perdidos?

Saberá esta fulana quem foi Dante Alighieri?

Saberá esta sujeita como é que Dante e Virgílio atravessaram o rio Aqueronte?

Saberá esta mulher que o Inferno está na Terra e o Paraíso só existe na Divina Comédia?

Irritação Urbana

Reabilitação Urbana. – diz o Governo (mais)
Reabilitação Urbana? – Pergunto Eu

Mas Senhores, a Reabilitação Urbana já era um plano do Governo Sócrates! (aqui)

Reabilitação Urbana? – Pergunto Eu novamente

Mas Senhores, Sócrates usou a Reabilitação do Parque Escolar, sobretudo para dinamizar e ajudar o sector da construção civil, estancando assim algum desemprego e o fecho de certas empresas (aqui) e os Senhores caíram-lhe em cima com insultos e blasfémias! Estupidamente chamavam-lhe megalomania socretina.

Chegaram agora à conclusão que foi uma ideia acertada? Foi?

Reabilitação Urbana? – Pergunto Eu outra vez
Quem são os Dias Loureiros e os Oliveira e Costas que os Senhores vão meter nisto?

Sonhos de Éter *

Sempre tive uma relação inexistente com a minha Mãe. Relacionamo-nos no éter. Vamos aqui ou acolá, passamos a travessa do arroz à mesa, oferecemo-nos umas lembranças nos aniversários e no Natal, apreciamos o crescimento dos miúdos, discutimos o presente embora sejamos politicamente contrárias, cumprimentamo-nos, despedimo-nos, vivemos tudo sob um manto de invisibilidade uma para a outra. Antes do colégio interno não me lembro bem como é que a relação funcionava, era demasiado criança e às crianças os pais parecem-lhes sempre bem. O internato despedaçou-a, se existia, se funcionava, coisa que nem sei. A minha Mãe diz-me várias vezes que tem pena seja assim. Eu nunca lhe disse nada. Nem sei se tenho pena porque nunca conheci outro modo de funcionar com a minha Mãe. A guerra do ultramar tornou-lhe a vida dura, eu sei, aqueles anos todos com o meu Pai na Guiné e ela sozinha em Lisboa com duas miúdas pequenas e tão seguidas. Acirrou-lhe o pessimismo, acidificou a alegria lá de casa, bloqueou-a nas ambições profissionais, e o regresso do marido marcado pelo estrondo das bombas, pelos clarões do napalm, deixou-a perdida, sobretudo quando o via lavado em suores e lhe ouvia gemidos acossados ao emboscar turras nos delírios travados sob os lençóis da cama de casal.
Isto de falar da minha Mãe é muito difícil.

Vejo-a a decair. De fim-de-semana para fim-de-semana tem mais uma coisa que começou a funcionar mal, ou a querer parar. Um olho, as pernas, o cotovelo direito, a tensão arterial, dores, muitos remédios, falta de vontade.

É tudo dolorosamente real, é um agora um nunca, é uma cobardia espicaçada, um não saber explicar.

Isto de pensar na minha Mãe é muito difícil.

* Dreams of Ether was originally created by the Artistic Director of the Compañía Nacional de Danza for the prestigious Nederlands Dans Theater. The piece takes us into a dream world, where eight women dance their dreams/nightmares within an extremely oppressive atmosphere.