
Esta gentinha que anda por aí com a língua afiada, pronta a criticar a existência dos funcionários públicos como se eles fossem uma praga a eliminar ou mesmo a Treponema Pallidum, precisa perceber de uma vez por todas a razão dos empregos estatais terem florescido e ser o Estado Português o maior empregador do país.
Façam o favor de ler.
Um: desde os primórdios da criação do Condado Portucalense, sempre fomos pobres;
Dois: a expansão para sul, com o pretexto de libertação dos sarracenos, tinha na verdade o objectivo de obtenção de mais terras para cultivo e consequentemente o crescimento do território;
Três: os descobrimentos vêm no seguimento do ponto dois, a pobreza grassava e haviam de se encontrar soluções alternativas;
Quatro: a queda da monarquia, novamente com o país desequilibradíssimo em termos de distribuição de riqueza, foi também um pretexto para sacar umas massas para alargar a base de consumo;
Cinco: a participação na 1ª Guerra Mundial tem como propósito manter o império português = mercado proteccionista, controlado pelo Estado;
Seis: a emigração em massa do início do séc. XX foi a maneira de minorar o empobrecimento do país;
Sete: a não participação na 2ª Guerra Mundial serviu para uns tantos encherem os bolsos com a venda de tungsténio para os dois lados e o Estado aferrolhar uns dinheiros com a venda de ouro e da Base das Lajes;
Oito: a emigração em massa no início dos anos 60 pela inexistência de emprego, e a guerra colonial com intenção de manter o mercado do ‘mar lusitano’ = mercado proteccionista controlado pelo Estado;
Nove: a entrada na CEE, foi quando se arrecadaram uns bons subsídios gastos ao desbarato, se promoveram as políticas de abate da nossa agricultura e pescas para entrada facilitada dos produtos estrangeiros e se promoveu a saída de povinho sem visto;
Dez: nunca fomos auto-suficientes em alimentos;
Onze: um país pobre tem sempre muitos funcionários públicos e empresas maiores em monopólio que subsistem em compadrio com o Estado;
Doze: os funcionários públicos só se tornaram funcionários públicos porque historicamente Portugal sempre teve uma estrutura de emprego estatal e paternalista.
Porquê? Porque somos pobres.
Os funcionários públicos não são aquele gajo lambão que de vez em quando nos salta ao balcão da repartição de finanças que coça o rabo duas vezes antes de pôr o carimbo num papel. Os funcionários públicos são os professores das escolas dos nossos filhos, são as auxiliares, enfermeiros e médicos dos hospitais, são os juízes nos tribunais, mas são também os químicos, os físicos, os matemáticos, os biólogos e os engenheiros que trabalham nos institutos técnicos e nos laboratórios, estruturas inexistentes ou existentes em número manifestamente insuficiente, no mercado de trabalho privado.
Os funcionários públicos só o são, para não serem desempregados. E é por isso que este Estado não tem qualquer direito de sangrar o funcionalismo público como o está a fazer, porque foi desde sempre o Estado que o acarinhou da pior maneira: como um pai possessivo do seu filho.
Estamos entendidos?
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